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Uma odisseia pouco regrada

02 de junho de 2026 às 19 h00

Lasse Hallström cumpre 80 anos de vida a 2 de junho de 2026. O clássico “As Regras da Casa” é uma das obras que ajudaram a colocar o realizador sueco na estante cimeira de Hollywood.

Correndo o risco de ser acusado de saudosismo, gosto de afirmar que “As Regras da Casa” é um daqueles filmes que meio que já não se fazem mais. Há quem lhes chame formulaicos, de fácil consumo e digestão: personagens-padrão condenadas à dualidade narrativa bom vs. mau; frases generalistas mais ou menos memoráveis; uma resolução previsível como uma caldeirada emocional temperada com lágrimas infalíveis.

Eu prefiro tomá-los como um puzzle que se monta sozinho: juntadas as peças, tudo passa a fazer sentido, como um presente bem embrulhadinho cujo formato denuncia o que o invólucro tenta esconder. Para um certo tipo de espectador habituado a desafios maiores, a histórias mais contidas ou até misteriosas, estas obras tendem a não resultar. Mas para quem gosta que lhe levem o pequeno-almoço à cama, a combinação é perfeita.

Dr. Wilbur Larch (Michael Caine) é obstreta e pratica abortos ilegais e partos indesejados, num desses esquecidos cantos do mundo que nos querem fazer acreditar que o Maine pode ser. Alicerçado numa equipa de competentes enfermeiras amorosas, gere ainda um orfanato composto por crianças que, por este ou aquele motivo, foram descartadas. Uma delas é Homer Wells (Tobey Maguire); e As Regras da Casa conta a sua odisseia.

 

“Correndo o risco de ser acusado de saudosismo, gosto de afirmar que “As Regras da Casa” é um daqueles filmes que meio que já não se fazem mais”

 

Homer nunca viu o mar. Para mais, nunca deu um passo até onde perdesse de vista a sua casa, a casa daquelas crianças mais novas que trata como irmãos. De infante indesejado (Homer foi devolvido por pais adotivos por duas ocasiões) passa a jovem adulto útil: nos últimos anos tem aprendido com Dr. Larch a arte da medicina para eventualmente ficar a tomar conta do orfanato onde cresceu, e por conseguinte realizar os tais abortos clandestinos, prática que questiona e evita.

Entretanto o desconhecido bate à porta. Como uma onda que nos alcança a cintura e puxa para o mar, apesar de não sabermos nadar e não estarmos preparados para a água gelada, chega ao orfanato um casal de jovens desesperados. Candy Kendall (Charlize Theron) e Wally Worthington (Paul Rudd) fizeram asneira, e decidem recorrer ao Dr. Larch para lhes ser facultado um remendo tão fácil quanto um penso rápido. Porém deparam-se com a dificuldade que é verem-se livres de uma vida, seja física seja psicologicamente; uma vida que ambos originaram. Com efeito, veem no pouco vivido Homer uma chance de redenção, e aceitam dar-lhe boleia dali para fora: uma decisão que lhe vai mudar a existência.

 

“Basta ligar a TV para encontrar, enfiado na programação de qualquer semana, este filme”

O mundo é-lhe então prometido: um novo trabalho numa casa de sidra, uma nova cama onde dormir, nova gente, um mar de oportunidades, e portanto responsabilidades com outra roupagem que não a das crianças abandonadas e das vidas por ceifar. Como sempre contra a vontade de quem nos quer bem, o destemido Homer embarca no descapotável do jovem casal, e segue para a sua nova vida.

Longe da sua casa as regras são diferentes: estão até penduradas na parede. A ausência dos mandamentos com que crescemos por vezes impede-nos de antecipar o abismo que se abre perante nós seja qual for a direção para que caminhemos. Mas é importante ir tropeçando, para que a grande queda nunca aconteça.

O emigrado Lasse Hallström, fazendo uso de uma banda sonora invocativa de clássicos mais antigos, de um cenário enternecedor, de atores infantis que nos dão vontade de correr para um orfanato e trazê-los a todos connosco, foi cumpridor tanto na realização de um grande filme, como na criação de uma obra de arte que chegou e ficou. Basta ligar a TV para encontrar, enfiado na programação de qualquer semana, este filme. E, para isso, não precisou de regras penduradas para nada: criou as suas, e garantiu que nunca as perdia de vista.

 

1 Comentário

  1. A Séptima Arte diz:

    A autópsia de uma falsa crítica de cinema…

    1. “O texto começa por anunciar uma leitura moral antes de sequer olhar para o filme.”

    Quando a conclusão ética antecede a análise, não estamos perante crítica: estamos perante um exercício de confirmação de crenças. O filme torna‑se irrelevante; serve apenas de ilustração para uma tese pré‑fabricada.

    2. “A descrição do orfanato é tratada como um cenário para juízos morais, não como construção cinematográfica.”

    O autor não analisa mise‑en‑scène, narrativa, ritmo, enquadramento ou simbolismo. Analisa… a sua própria consciência moral. Isso não é crítica: é introspeção publicada.

    3. “A expressão ‘uma vida originada’ denuncia a fonte conceptual.”

    Não é linguagem de cinema, nem de teoria fílmica, nem de análise narrativa. É linguagem de doutrina. E quando a doutrina entra pela porta da frente, a crítica sai pela janela.

    4. “A metáfora dos ‘mandamentos’ não interpreta o filme — projeta sobre ele um código moral externo.”

    O crítico não lê a obra; lê‑se a si próprio. E confunde essa leitura com interpretação. É o erro metodológico mais básico: substituir o objeto pelo observador.

    5. “A ideia de que a ausência de regras conduz a ‘abismos’ é uma moralização que o filme não sustenta.”

    O filme trabalha tensões éticas complexas. O texto reduz tudo a um binarismo moral infantil. É uma amputação conceptual.

    6. “A conclusão transforma a narrativa numa lição edificante que o filme nunca pretendeu ser.”

    Quando um crítico termina com uma moral que não existe na obra, o que está a analisar é a sua própria necessidade de ordem, não a criação cinematográfica.

    7. “O texto não interpreta: instrumentaliza.”

    O filme é usado como veículo para reafirmar valores pessoais. Isto é o oposto da crítica. É propaganda suave.

    8. “A ausência total de análise formal revela desconhecimento ou desinteresse pelo cinema enquanto arte.”

    Não há uma única referência a construção visual, estrutura narrativa, direção de atores, fotografia, montagem ou subtexto. É como comentar um livro sem saber ler.

    9. “O resultado final é um texto que revela mais sobre o autor do que sobre a obra — e não por profundidade, mas por limitação.”

    A crítica falha quando o crítico se torna o tema. Aqui, o crítico é o único tema.

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