Quatro polémicas que evito e o seu porquê
Em largas décadas a escrever de forma pública, perdi a conta aos temas que abordei e às polémicas em que participei. Existem, porém, entre estas, quatro que desde há algum tempo me esforço por evitar. A primeira, associada às mais antigas preocupações humanas, é sobre afirmar ou contrariar a existência de Deus. A segunda, incontornável para quem trabalha com a língua, gira em torno do uso do Acordo Ortográfico, que aliás sigo. A terceira, supostamente trivial, mas que envolve paixões desgovernadas, respeita à desrazão do clubismo futebolístico. Por fim, a quarta polémica envolve a afirmação ou a rejeição, categórica e imposta aos outros, de rígidos princípios de moral.
As razões desta recusa não passam pelo desinteresse pelos temas em causa. Desde cedo, e antes mesmo de conhecer a sua origem, adotei o conhecido aforismo do romano Públio Terêncio, já com 2.200 anos, sobre nada do que fosse humano lhe ser estranho, significando isto ser omnívoro a propósito dos assuntos. A minha rejeição não passa também pela fuga perante assuntos que sejam difíceis e controversos. De início, antes ainda de Abril, tive por isso de confrontar a censura e a repressão do regime, recorrendo então a ardis. E depois, já em democracia, sempre que me pareceu justo e apropriado, raramente evitei questões difíceis que me parecessem úteis, necessárias e estimulantes.
A necessidade, que experimento hoje, de evitar escrever em público envolvendo-me em certas polémicas, que até poderia ser contrariada pelo facto de felizmente vivermos em democracia, apenas pode explicar-se pelas circunstâncias atuais dos processos de comunicação e de informação associados às diversas ferramentas que acompanham o uso intensivo da Internet.
Um dos seus aspetos essenciais relaciona-se com a caraterização de quem nela interage, seja como autor ou como recetor, que é hoje um volume colossal de humanos, a maioria até há poucos anos sem hipótese alguma de se fazer ouvir fora do seu estreito círculo pessoal na qualidade de autor ou de comentador.
Emerge aqui a figura do «idiota da aldeia», tal como dela falou Umberto Eco. A pessoa que, sem formação, conhecimento e ponderação, sem usar regras básicas de convivência, muitas vezes sem um mínimo de literacia, escreve, opina e até se arroga «informar» as demais. Eco disse que «o drama da internet é promover o idiota da aldeia a portador da verdade», lembrando que, se essas pessoas «normalmente falavam só depois de beberem uns copos de vinho na taberna, e eram logo caladas, agora têm o mesmo direito à palavra de um Nobel». Quem circula pelas caixas de comentários dos jornais digitais, no ruído das redes sociais ou no labirinto dos «debates» em rádios locais e certos programas televisivos – ou já evita fazê-lo, por razões de sanidade mental – sabe bem do que falo.
E sabe também que tudo piora quando os temas são sensíveis e apelam ao descontrolo emocional e argumentativo, como ocorre com os quatro associados às polémicas que referi. Se tivesse solução para o problema talvez pudesse ganhar bom dinheiro com ela, mas como não tenho, fixo-me em duas certezas. A primeira: sabendo que não há volta a dar no processo cumulativo de comunicação e informação atualmente em curso, a única via é a construção, apoiada nas instituições democráticas, de mecanismos de aferição e responsabilização. A segunda certeza: nada deste esforço de regulação pode colidir com a liberdade de expressão e de opinião, reconhecendo-se, todavia, que conversar não é, como jamais foi, insultar, deturpar e agredir, seja cara a cara ou à distância.


