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Cerejas de Maio, Cerejas do Gaio

23 de maio de 2026 às 10 h15

No passado dia 18 de maio o município do Fundão promoveu um leilão das primeiras cerejas da região deste ano. 27 cerejas foram vendidas por 820 euros, aproximadamente 30 euros por cereja, um valor que grande parte de nós não está disponível para gastar. Felizmente, o valor não corresponde ao preço de mercado deste fruto e explica-se pelos objetivos simbólicos e solidários do leilão, assinalar o início da campanha anual e angariar fundos para instituições de solidariedade social.

Um evento que, no panorama nacional, é caso único e que revela o especial lugar que a cereja tem na nossa cultura alimentar. No caso das cerejas do Fundão, da Cova da Beira e de São Julião (Portalegre), a particular ligação aos territórios onde nascem é atualmente reconhecida através dos selos de qualificação europeia de produtos com Indicação Geográfica Protegida (nos casos das cerejas do Fundão e Cova da Beira) e com Denominação de Origem Protegida (no caso da cereja de São Julião). No entanto, outras variedades são, nos dias de hoje, populares entre os apreciadores do fruto, como as cerejas de Resende, as de Penajóia e as de Alfandega da Fé, multiplicando-se as feiras e certames locais que divulgam e valorizam este fruto.

Uma grande parte do apreço que demonstramos à cereja explica-se pelas suas peculiares características. A sua inultrapassável sazonalidade torna-o muito desejável, exigindo particulares condições climatéricas para o seu desenvolvimento, nomeadamente o frio no inverno. Contrariamente à Pêra Rocha do Oeste (DOP), à Maçã de Alcobaça (IGP) ou à Laranja do Algarve (IGP) que é possível conservar em ambientes refrigerados por vários meses e, assim, dispor deles durante todo o ano, a cereja teima em ser um fruto pouco amigo desta tecnologia. A fina casca que cobre a polpa é delicada demais para reter a humidade do fruto, amortecer apertos e toques mais violentos e suportar grandes diferenças de temperatura, tornando este fruto disponível apenas em um curtíssimo período do ano.

Acresce, ainda, o facto de os seus encantos e doçura não serem apenas apreciados por nós, seres humanos. Como bem diz o provérbio popular “Em Maio, as cerejas, uma a uma, leva-as o gaio, em Junho, a cesto e a punho”, pelo que o produtor de cereja aceita o fado de parte da sua produção ser levada pelos pássaros, principalmente as primeiras cerejas do mês de Maio.

Um conjunto de qualidades e particularidades que, sem surpresas, garantem à cereja uma certa raridade e que, por isso, desde Antiguidade Clássica tem um lugar especial nas mesas mediterrânicas. Em Portugal, um colorido apontamento contabilístico do século XVI dá conta da predileção da rainha D. Catarina de Áustria pelas primeiras cerejas de Maio, fazendo avultados gastos em canastras e cabazes deste fruto que repartia pelas suas damas de companhia e oferecia a algumas comunidades de freiras de Lisboa. Um doce mimo no ocaso da primavera que, ainda hoje, anuncia a chegada de dias mais longos e de tardes mais quentes.

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