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Pelos arrozais de Mai Chau (parte 4) Vietname – 2025

22 de maio de 2026 às 11 h25

Lê-se muito pelas redes sociais umas quantas frases batidas que vamos consumindo até à exaustão. Uma delas é a de que viajar serve para “nos reencontramos”. Nunca fui acólito dessa máxima, mas a verdade é que, em plena viagem, por vezes do outro lado do mundo, quase que nos vemos ao espelho, de como éramos há uns bons anos atrás. Isto, ao recordar tantos momentos em que me cruzo com crianças e quase que me vejo ali, mas pertencendo a uma época distante, e num cenário muitíssimo diferente, mas a essência é a mesma.

 

Falo da alegria de quem teve a sorte de crescer a brincar cá fora, de saber o que é o contacto com o ar livre, de cair e se esmurrar, de saber desde cedo o cheiro da terra. E de tentar não entrar em pânico quando a voz da nossa mãe ecoa ao longe a chamar-nos pela enésima vez para ir comer pois já é tarde. O Vietname é pródigo neste revivalismo.

 

Uma estrada íngreme leva-me para uma zona afastada de Mai Chau onde encontro rapazes e raparigas que jogam à bola numa correria desenfreada, típica de quem é adolescente e tem energia de sobra para ali gastar. Dois deles têm uma camisola da seleção portuguesa, e não resisto a esperar por um momento de pausa para lhes perguntar o porquê de viverem do outro lado do mundo e escolherem aquela com as cores azul e verde.

 

Quero agora afastar-me ainda mais, até que alguma história digna de contar me encontre e me detenha por umas horas e me faça saborear os pequenos condimentos que dão sabor à vida. Quando seguia em velocidade cruzeiro na acelera, deparo-me com um grupo a divertir-se numa piscina improvisada no meio de um campo.

 

A paragem foi obrigatória. Num reservatório para alimentar os campos de arroz, crianças mergulham na mesma água em que os seus amigos aproveitam para se ensaboar, já que era dia de tomar banho. Reina ali alegria, com o tempo a passar devagar num ambiente de simplicidade e serenidade. Estavam ali há horas, mas a sofreguidão de querer brincar ou relaxar o corpo fazia-os ignorar tudo em seu redor.

 

Apesar das diferenças, veio-me à memória os tempos de juventude em que, no calor do Verão, havia aqui na Lousã uma romaria aos tanques, por vezes saltando vedações de terrenos privados para aí passar a tarde a aproveitar a vida, por vezes enchendo a barriga com fruta acabada de furtar das árvores.

 

Tal como estes jovens, éramos felizes e não o sabíamos.

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