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Uma profissão em mudança

21 de maio de 2026 às 09 h30

A profissão de professor, reconhecida por muitos maltratada por outros tantos, evoluiu de forma substancial ao longo dos anos. Quando comecei a ensinar, nos idos de sessenta do século XX, era claramente dirigida, no essencial, às elites obviamente tal como o sistema educativo que fora talhado à medida dos grupos sociais mais “importantes”, longe da generalidade da população. Lembremos que a divisa educativa do Estado Novo era que aos portugueses comuns bastaria saber ler, escrever e contar para serem felizes e levarem a sua vida para a frente. Alguém pensava pelo povo, pelo que prolongar a escolaridade era um prejuízo. que não se justificava .

Entretanto, com o 25 de abril de 1974, muito mudou , a começar pela própria formação dos professores, particularmente os então chamados professores primários.

Recordo que estão a comemorar-se os 50 anos do curso que foi a primeira fornada desses “novos” professores preparados na Escola do Magistério Primário de Coimbra para implantarem uma educação diferente, um ensino que servisse a todos os cidadãos, independentemente do seu lugar na pauta das sociedades económicas, financeiras ou sociais e que pudessem falar sobre o que estava bem ou mal. E também, que pudessem associar-se em organizações plurais que os representassem e dignificassem a profissão a que iam dedicar as suas vidas.

Tive o gosto de os acompanhar e de apreciar a sua disponibilidade para “navegarem por mares nunca antes navegados”, assumindo as mudanças que era necessário fazer nas escolas e nas salas de aulas. Para todos eles o meu abraço de reconhecimento.

Estes jovens professores perceberam rapidamente que o que os esperava era mesmo um trabalho diferente daquele que era feito até aí e que a dignificação do seu trabalho e o reconhecimento social que sabiam merecer exigia também, para além da formação nova, uma maneira de se organizarem e de fazerem da cooperação uma necessidade absoluta .

A constituição de sindicatos revelara-se inevitável e em todo o país se foram juntando professores de todos os setores de ensino, um pouco desorganizados mas cheios de vontade de contribuírem para a mudança.

A 19 de maio de 1974 realizou-se na Figueira da Foz, a primeira reunião de coordenação nacional de estruturas a criar, em que foi feito apelo a que todos os professores se sindicalizassem até 31 desse mês, permitindo a eleição de delegados sindicais em 2 de junho. E propunham também um curto, mas generoso, caderno de encargos: que nessa reuniões se abordassem a gestão democrática das escolas, o estatuto dos delegados sindicais e a elaboração de um caderno reivindicativo.

Mas o mundo também andou mais depressa do que se imaginava, as transformações na forma de aceder à informação foram-se alterando, as aulas passaram a ser diferentes. A sociedade exigiu aos professores que fossem educadores, que assegurassem o controle de alunos no fim das aulas diárias, que fizessem trabalho de apoio social. A sala de aula mudou. Era necessário reciclar os professores para responderem a esse mundo novo. E, com mais ou menos dificuldades as coisas foram correndo razoavelmente.

Até que surgiram as novas tecnologias e a inteligência artificial, um universo mergulhado em novos estereótipos. Mesmo a ortografia foi uma novidade para muito (é sector ou setor? É ato ou acto?)

Quero dizer com isto que se pede hoje um professor diferente que seja respeitado nas comunidades onde exerce o seu ofício, que acompanhe os progressos, que seja capaz de os incorporar no seu dia-a-dia.

E a questão que se me põe é perceber se as mudanças que estão a ser introduzidas pelo ministério da Educação são as mais adequadas para os tempos que correm. Temo bem que não sejam.

Como escreveu João Barroso, “os professores estão hoje no centro da turbulência que afeta as escolas e a educação em geral. O seu estatuto social diminuiu, a sua identidade profissional diluiu-se, a legitimidade institucional do seu trabalho é posta em dúvida, a eficácia dos seus métodos de ensino é contestada”.
Está aberto um novo e difícil “caminho das pedras” que os professores trilharão. Vamos a ver, todavia, se não continuam agarrados -enquanto profissão- a conceções que os conduzirão a becos de onde dificilmente sairão.

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