Do acaso
Somos acaso. Com o destino, individual e coletivo, jogado por Moiras várias. Somos pó de estrelas. Mas o nosso caminho não está escrito nas estrelas.
Somos acaso nas vias pessoais. Os encontros e os desencontros, os amores e os desamores, os trajetos e os lugares da existência singular não obedecem a plano algum de natureza cósmica. São pura contingência, jogo de cartas ou lotaria.
Obama não tem razão. Nós não podemos. A ilusão do querer é poder desintegra o sentido da vida. Não se muda a vida por um ato de vontade. E o mundo muito menos.
Alain Resnais, em Smoking/ No Smoking, explica exemplarmente a álea existencial de “o que poderia ter acontecido” se algumas escolhas tivessem sido feitas ou deixadas de fazer. Álea de que o protagonista de Match Point, de Woody Allen, como nós, não se dá conta. E vida, com suas minúcias, continua. A vida continua, sempre.
Também o mundo é acaso, como os atuais e inquietos tempos bem demonstram. Em 1914 uma bala em Saravejo, uma bala nada diferente das demais usadas em assassinatos régios, deflagrou a Primeira Guerra Mundial. Quatro anos após essa singular bala havia ceifado a vida de milhões. E arrasado os impérios eternos.
Em dezembro de 2019 na cidade de Wuhan, na China, o SARS-CoV-2 foi identificado pela primeira vez em seres humanos. O surto inicial deu origem a uma pandemia global que, à data de fevereiro de 2026, havia resultado em 7 milhões de mortes. E em confinamentos e outras políticas estatais de controlo, inéditas em regimes políticos democráticos.
Nem Hegel, nem Marx nem os teóricos da mão invisível têm razão. O sentido e o fim da história humana não são regidos por leis científicas causais, filosóficas, históricas ou económicas.
É o acaso, o simples acaso, que comanda o mundo e a vida.
