Zug e Coimbra
A crise habitacional europeia está a forçar cidades de todas as dimensões a fazer o que até há pouco parecia heresia urbanística: suspender os seus próprios planos para conseguir construir. Barcelona redesenha o seu plano metropolitano para encaixar 220 mil fogos sem tocar nos limites da cidade, cresce para dentro. Em Berlim, quase um terço das famílias entrega mais de 30% do ordenado à renda. Em Lisboa, o salário médio já nem chega para pagar o teto.
A Comissão Europeia acordou para o problema em 2025 com o Plano para Habitação Acessível, admitindo o que qualquer inquilino europeu já sabia: preços e rendas dispararam 48% e 22% numa década.
É neste pano de fundo que duas cidades, com dias de diferença, tomaram decisões cortadas pelo mesmo molde. Zug, 32 mil habitantes, cofre-forte da Suíça central com uma taxa de vacância de 0,42%, anunciou a 7 de abril as «Weisse Zonen» (zonas brancas) zonas onde praticamente todas as regras de edificabilidade caem por terra para desbloquear a construção. Coimbra, 145 mil habitantes, cidade universitária onde os preços da habitação aceleraram 14,8 pontos percentuais num só trimestre, suspendeu parcialmente o PDM para dar vida às frentes ribeirinhas e abrir caminho a uma majoração de 30% na construção de habitação acessível.
O instrumento é primo-irmão. Os contextos, radicalmente distintos. A coragem, a mesma. Há algo de eloquente em ver uma cidade suíça e uma cidade portuguesa, separadas por mil quilómetros e por realidades económicas que não se cruzam, chegarem à mesma conclusão: quando o plano trava mais do que orienta, a pior decisão é ficar à espera do plano perfeito.

