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Nós ouvimos cada uma destas mulheres

17 de abril de 2026 às 10 h45

Esta semana, a equipa do programa matinal da TVI gerou uma onda de indignação nacional. No centro da polémica estão os comentários da apresentadora sobre o caso de uma jovem de 16 anos que acusa quatro influencers de a terem violado, agredido, filmado e partilhado online as agressões. Disse Cristina, a propósito deste caso: “Nós temos de falar disto. Porque é assim: mesmo que ela tenha dito para parar, quando são quatro, que estão naquela adrenalina de estar a fazer sexo com uma rapariga, alguém ouve? Claro que tem de ouvir, mas alguém entende aquele ‘não quero mais?’”. Quando a situação parecia não poder piorar, veio a TVI tentar justificar o injustificável, lamentando “a forma, o tom, a descontextualização e a manipulação grosseira com que as palavras da apresentadora estão a ser interpretadas”, como se houvesse duas interpretações possíveis. “Violações ou sexo sem consentimento só podem ser objeto de repulsa e de condenação”, diz a estação televisiva.

Realmente, nós temos de falar disto. A Cristina Ferreira tem uma voz, um lugar e um papel mediático que lhe dão responsabilidades acrescidas no discurso público. Quando ela – figura pública, mulher, mãe e mãe de um menino – desvaloriza a importância do consentimento e relativiza um crime de violação, porque os agressores estão num estado de adrenalina e não ouviram o “não”, está a fragilizar a luta de todas as mulheres pelo direito à dignidade, à liberdade e ao livre-arbítrio sobre o seu corpo e a sua sexualidade. Temos mesmo de falar disto, porque a TVI – como todos os órgãos de comunicação social – tem um papel na formação da opinião pública, um compromisso com o rigor e com a informação.

A televisão é um poderoso instrumento de entretenimento mas, também, de informação, de formação de opinião e, até, de educação, o que a compromete com o debate público e, acima de tudo, com o bem. Onde é que anda a Entidade Reguladora para a Comunicação Social?

Nós temos de falar disto, sim, porque entre nós e as palavras há, realmente, metal fundente. As palavras significam coisas. Quando se diz “mesmo que ela tenha dito para parar”, está a declarar a dúvida sobre se ela efetivamente disse para parar. E ainda que não tenha dito, ainda que toldada pela violência, o medo e o choque, não tenha dito nada: deixa de ser uma violação por causa disso? Quando se diz “aquela adrenalina de estar a fazer sexo com uma rapariga” não se diz “violação”. “Fazer sexo” é muito diferente de “violar”, porque implica a participação consentida de todas as partes. São coisas muito diferentes e, por isso, têm formulações diferentes. Quando se pergunta se “alguém entende aquele ‘não quero mais?’”, o que se está a dizer é que compreensível e aceitável que, apesar do “não quero mais”, o outro continue – e não é. É inaceitável e é crime. É precisamente isso que define uma violação: um não querer e o outro ignorar esse facto. Já entre “violações” e “sexo sem consentimento” não há qualquer diferença, algo que a TVI certamente sabe, apesar de tentar distinguir os conceitos no seu comunicado.

Portugal registou em 2025 o valor mais alto de crimes de violação dos últimos dez anos. São violadas 11 mulheres por semana no nosso país. Muitas destas mulheres estariam sentadas em frente à televisão quando aquela apresentadora perguntou, de forma displicente e leviana: “alguém ouve?”. Ouvimos, sim, Cristina, e temos mesmo que falar sobre isto: nós ouvimos cada uma destas mulheres.

 

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