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Coimbra 2025: Um rumo para a Saúde

03 de dezembro de 2025 às 11 h50

O 28.º Congresso Nacional da Ordem dos Médicos, realizado em Coimbra nos dias 28 e 29 de novembro de 2025, não foi um simples encontro de médicos. Representou um momento de balanço e de responsabilidade, em que os médicos olharam para os cuidados de saúde com preocupação, mas também com a determinação de contribuir para a construção de um novo caminho.

“Um rumo para a Saúde” é mais do que um título, é a afirmação de que não podemos continuar a gerir um sistema permanentemente pressionado através de soluções improvisadas, conjunturais e sem impacto duradouro.

Sabemos que o SNS enfrenta dificuldades profundas: falta de médicos e de outros profissionais, serviços sob pressão, desigualdades no acesso e uma distância crescente entre o que é prometido e o que é concretizado. Mas seria demasiado fácil limitar-nos a acusar governos, planos ou orçamentos. Há uma responsabilidade comum, que é também de todos nós, de procurar respostas para o país quando quem as deveria garantir é incapaz de o fazer.

Este congresso em Coimbra mostrou isso de forma clara. Durante dois dias, ouvimos médicos de todo o território e outros profissionais das mais diversas áreas, partilharam-se experiências, confrontaram-se visões distintas e procuraram-se pontos de convergência. A comunidade médica rejeita a degradação ruidosa e, por vezes, dissimulada do SNS, mas também não deseja permanecer prisioneira de uma lógica apenas reivindicativa. Quer participar. Quer estar onde se desenha o futuro da política de saúde, trazendo a realidade concreta das urgências, dos cuidados de saúde primários, dos hospitais e das periferias sobrecarregadas, onde tantas equipas continuam a assegurar cuidados com uma dedicação que o país reconhece, mas nem sempre valoriza.

Assumir esta responsabilidade não significa absolver quem governa. Significa reconhecer que a autoridade moral dos médicos se reforça quando somos parte ativa das soluções. Quando defendemos, com firmeza, a centralidade do ato médico e da relação médico-doente, a qualidade dos cuidados, a segurança das pessoas e o respeito pelas equipas multidisciplinares, sem confundir colaboração com substituição. E quando afirmamos, com clareza e lealdade institucional, que há limites que não podem ser ultrapassados sem pôr em causa a confiança no SNS e na própria profissão médica.

O que sai de Coimbra é uma convicção: os médicos não serão meros espectadores da crise na Saúde, nem aceitarão a narrativa de que “não há alternativa”. Cabe-nos dialogar, propor, insistir, construir pontes e, quando necessário, erguer a voz determinada em defesa dos doentes e do SNS. Mas cabe-nos, sobretudo, manter viva a matriz ética e humanista da medicina, transformando o desalento em iniciativa e a crítica em visão de futuro. Se o fizermos, estes dois dias terão sido mais do que um exercício de reflexão, terão marcado o verdadeiro ponto de partida para um “Rumo para a Saúde” mais justo, mais sólido e mais humano para Portugal.

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