Vida artificial e música unidas para recriar Jorge Lima Barreto e Silvestre Pestana
A criação “Semióticas” é amanhã apresentada no Salão Brazil
A obra do final dos anos 1970 de Jorge Lima Barreto, com o artista plástico Silvestre Pestana, vai passar por uma “evolução tecnológica” no Salão Brazil, em Coimbra, através de um espetáculo que combina vida artificial e música.
A criação “Semióticas”, que cruza arte digital, música contemporânea e sistemas de vida artificial, desenvolvida por André Quaresma e Rita Barqueiro, será apresentada no sábado, às 22:00, no âmbito do projeto de doutoramento de André Quaresma.
O espetáculo surge a partir do estudo de “um trabalho feito pelo Jorge Lima Barreto com o artista plástico Silvestre Pestana, no fim dos anos 1970, início dos anos 1980”, para o Anar Band, contou hoje à agência Lusa o doutorando.
Para o projeto das décadas de 70/80 foram feitas “várias serigrafias feitas pelo Jorge Lima Barreto com o Silvestre Pestana, sobre papel milimétrico, com imagens ‘pop’, com cores, com poesia concreta”, que os autores de Semióticas entenderam levar para a vida artificial.
“Fazia muito sentido, porque é como se fosse uma evolução tecnológica, porque já ali havia muita procura, e o Silvestre Pestana faz muito isso, de estéticas futuristas e ligadas à tecnologia e ao cibernético”, explicou.
A criação que será apresentada no sábado olha para os originais, desde as cores utilizadas até à poesia, e passa a arte dos anos 1970/1980 para um “tipo de comportamento que estes modelos de vida artificial têm”.
A partir do momento em que foi possível aplicar este tipo de semiologia, os criadores conseguiram “manter uma coerência do trabalho original para algo que é mais de 2025”, acrescentou André Quaresma.
Os autores do projeto desenvolveram uma ferramenta que corre diferentes simulações, utilizando os autómatos celulares – sistemas de vida artificial –, que são projetadas em telas, além de terem definido diferentes cores, tamanhos e um conjunto de dinâmicas visuais para serem lidas.
Os artistas “vão ler as simulações que estão a ser projetadas como se fossem partituras musicais”, informou.
Num comunicado enviado hoje à Lusa, o Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV) aponta que, no espetáculo, André Quaresma e Rita Barqueiro desenham pulsações visuais — “autómatos celulares que respiram” -, diante das quais Ilda Teresa Castro e Vítor Rua “respondem com som”.
Como elucidou André Quaresma, os autómatos celulares “são um dos modelos mais simples no âmbito da Inteligência Artificial [IA], que é a vida artificial”.
A escolha foi pensada para “apresentar de uma forma transdisciplinar, quer ao pessoal de IA, que trabalha com vida artificial, aplicações práticas no mundo das artes dos autómatos, quer o contrário, quer o pessoal das artes conhecerem um tipo de conceito, que muitas vezes é alienígena para eles”.
Semióticas nasceu do projeto de doutoramento em estudos musicais de André Quaresma, em que o aluno está a trabalhar Jorge Lima Barreto e as práticas composicionais do artista português.
“O doutoramento está dividido em vários laboratórios, numa lógica de prática como investigação. O primeiro laboratório foi em junho, no TAGV”, sendo Semióticas “o segundo laboratório”, disse.

