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Opinião: O porteiro e o estado da arte

31 de outubro de 2025 às 12 h02

Nos anos 50 do século passado, David Manning White formulou uma teoria que se tornou central nos estudos do jornalismo: a teoria do gatekeeping. No essencial, descreve o jornalista ou o editor como o “porteiro” da informação – aquele que decide o que entra e o que fica de fora do espaço público. Ao estudar o processo de seleção noticiosa nos jornais norte-americanos, White concluiu que cada escolha editorial reflete uma rede de valores, de hábitos e de responsabilidades. É o modo como os media filtram, como enquadram e a quem dão voz que define a qualidade do ar que respiramos em comum.

Quase oitenta anos decorridos, o papel do “porteiro” continua a ser decisivo. Um caso ocorrido há duas semanas ilustra-o bastante bem. Referimo-nos a um influenciador digital, Gonçalo Sousa, que se autoapresenta como “macho tóxico” e que construiu notoriedade nas redes sociais com publicações racistas, machistas e xenófobas, além de ligações à extrema-direita – circunstâncias que já lhe valeram a suspensão da conta no X. Apesar deste perfil, surgiu num vídeo promocional do programa de debate Estado da Arte, da RTP, cujo elenco iria integrar. O episódio mostra de forma exemplar o que acontece quando o “porteiro” se distrai. Ou quando acredita que ninguém observa a porta.

É conhecido o desenvolvimento. A direção de informação da RTP, liderada por Vítor Gonçalves, reagiu quando o caso gerou alarme público, para afirmar que “ponderou e reviu a sua posição” e que os comentários do influenciador são “inaceitáveis”. Assim é, de facto. Contudo, se o recuo foi célere, também foi tardio. A decisão de o convidar dificilmente poderá resultar de ignorância – a não ser que admitamos que o diretor de informação seja alguém desinformado. Gonçalo Sousa é amplamente conhecido, e o conteúdo das suas posições está a um clique de distância. Tudo indica que a RTP acreditou que a presença do influenciador passaria despercebida e que o episódio se diluiria na rotina mediática. Talvez julgasse também que as suas “toxicidades”, muito ao sabor do tempo, multiplicariam audiências. O alarme soou quando a contestação alastrou.

A função de gatekeeper exige o contrário: que haja discernimento antes de surjir o ruído. O editor cumpre o seu papel quando antecipa o impacto simbólico de cada decisão e sempre que avalia o que deixa entrar no espaço mediático. Quando falamos do serviço público, esta responsabilidade é ainda maior, porque a RTP não é um canal como os outros. Neste caso, o papel do gatekeeper é muito mais do que abrir ou fechar portas: é proteger a integridade do espaço público. Se o bom jornalismo cumpre a sua função democrática quando escolhe com lucidez as vozes que legitima, num canal de serviço público esta preocupação deve ser muitíssimo superior. É no gesto silencioso de abrir a porta a quem enriquece o diálogo comum que o serviço público revela a sua verdadeira força.

Ao tentar integrar uma figura associada à retórica da misoginia e da intolerância, a RTP fragilizou o vínculo de confiança que sustenta a ideia de serviço público. O contraste com a dispensa de vozes de reconhecida densidade intelectual, como a historiadora Raquel Varela, reforça a sensação de desorientação: o pensamento crítico cede à visibilidade fácil, o argumento à provocação, a substância ao imediatismo das redes. Perante este cenário, é legítimo interrogar: qual é, afinal, o “estado da arte” do jornalismo e do serviço público na RTP? O que nos diz este caso sobre o seu nível de desenvolvimento e de exigência? A resposta, infelizmente, parece apontar mais para a capitulação perante o ruído do que para a defesa intransigente da integridade do espaço público.

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