Opinião: Hera, missão espacial de defesa de Terra!
Apesar da aproximação da tempestade Milton, no passado dia 7 de outubro, a missão espacial Hera foi lançada do Cabo Canaveral, Flórida, a bordo de um foguetão Falcon 9 da SpaceX. Dois anos após a missão DART, da Agência Espacial Norte-Americana (NASA), ter colidido com a pequena lua Dimorphos do asteroide Didymos, alterando a sua órbita, eis que é lançada pela Agência Espacial Europeia (ESA) a missão Hera para estudar com mais detalhe os efeitos desse impacto.
A DART e a Hera fazem parte da primeira tentativa de testar as nossas capacidades para desviar um asteroide da sua órbita, precavendo-nos para o dia em que tal possa de facto vir a ser necessário. Há cerca de 65 milhões anos, os dinossauros não tinham essa capacidade. Hoje temo-la. Porém, só conseguiremos desviar um asteróide em rota de colisão com a Terra se tivermos um pré-aviso de muitos anos. Ou seja, se conseguirmos perceber com muita antecedência que um certo asteroide irá colidir com a Terra. Pode não ser hoje, nem amanhã, nem daqui a dez mil anos, mas um dia algum colidirá! Tranquilizemo-nos, no entanto, pois tudo indica que estamos safos durante as próximas décadas.
Estudar com grande detalhe o movimentos dos asteroides conhecidos e rastrear continuamente os céus, descobrindo entre 3 a 7 asteroides novos a cada dia, é precisamente o que muitos astrónomos fazem. E com a ajuda de cada vez mais telescópios robotizados que já fazem o trabalho sozinhos. Quanto maior for a precisão, maior será o pré-aviso e ter um grande pré-aviso é crucial.
Há dois anos, com um impacto, a missão DART conseguiu reduzir em cerca de 30 minutos a órbita da lua Dimorphos em torno de Didymos, órbita que demorava quase 12 horas. Mudando a órbita dessa lua vai também mudar a órbita do asteroide em torno do Sol. Lentamente, mas muda. Resta-nos perceber exatamente quanto.
E temos de perceber bem de que depende a alteração da órbita. Precisamos saber se o asteroide é mais parecido com uma bola de pedras e cascalho, ou é mais parecido com uma enorme rocha coberta de gravilha, pois quando chegar o dia de a humanidade ter de desviar um, temos de saber exatamente o que precisamos de fazer.
Mudar a órbita de uma lua do tamanho de um estádio de futebol é uma coisa, mudar a órbita de um asteroide do tamanho das Berlengas é outra.
A Hera chegará a Didymos daqui a dois anos. Com ela vão também dois pequenos satélites cúbicos, cubesats, cada um mais ou menos do tamanho de três pacotes de leite em cima de outros três: o Milani, que irá estudar detalhadamente o asteroide Didymos, e o Juventas, que irá estudar a lua Dimorphos. Tive o prazer de co-orientar o Mestrado em Astrofísica e Instrumentação para o Espaço de Miguel Gomes, conjuntamente com Alain Herique, da Universidade de Grenoble-Alpes, precisamente sobre a capacidade do radar JuRa do Juventas para estudar interior de Dimorphos. Sim, é capaz de detetar pedras debaixo de terra e de mapear o interior da pequena lua. Façamos figas para que não se avarie pelo caminho e aguardemos.
