opiniao

Opinião: Descoberta de novos gelos para além de Neptuno

06 de junho de 2024 às 11 h29

Desde 1992 que sabemos que Plutão não se encontra sozinho na sua região do sistema solar. Foi, aliás, devido à descoberta de muitos outros corpos celestes na região depois do planeta Neptuno que a acabámos por denominar de Cintura de Kuiper. Plutão, que lá se encontrava, foi reclassificado para a nova categoria de planeta-anão.

Frequentemente, chamamos a toda essa região também de transneptuniana, chamando de objetos transneptunianos aos corpos celestes que lá se encontram.

A temperatura no Espaço aqui junto à Terra é de cerca de 120 °C. Já perto do planeta Júpiter, cinco vezes mais longe do Sol do que nós, teremos um máximo de -100 ºC e na zona de Neptuno, 30 vezes mais longe, já só temos -200 ºC. Ou seja, na região transneptuniana quase tudo se congela. Congelam-se as moléculas de água, evidentemente, mas congelam-se também as de nitrogénio (azoto), as de metano (um gás bem combustível aqui na Terra), as de metanol (um álcool tóxico), e até mesmo as de dióxido de carbono. Assim, nessa região tão fria é de esperar encontrarmos gelos de todos estes compostos químicos.

Gelo de água já há muitos anos que foi detetado. A supresa foi a deteção de gelo de dióxido de carbono em todas as superfícies dos objetos transneptunianos, num estudo liderado pelo colega Mário de Prá, e no qual participei, utilizando observações do Telescópio Espacial James Webb (JWST), agora publicado na revista Nature Astronomy. E mais surpreendente foi descobrirmos monóxido de carbono, que sublima a -195 ºC e, portanto, já não deveria existir. Mas existe. E encontra-se apenas naqueles que têm muito dióxido de carbono, indicando que há grupos diferentes de objetos na Cintura de Kuiper.

Os planetas gigantes do nosso sistema solar, Júpiter, Saturno, Urano e Neptuno, não se formaram na posição onde estão hoje. Formaram-se a outras distâncias e migraram. E enquanto migraram foram espalhando e empurrando todos os pequenos objetos que encontravam pelo caminho. Findo esse processo, acabámos com uma enorme região de pequenos corpos acumulados para além de Neptuno, a tal Cintura de Kuiper, que deverá ser uma mistura de corpos formados em regiões diferentes do sistema solar. Porém, não é fácil demonstrá-lo. A deteção de gelo de monóxido de carbono é mais um passo. Esse gelo muito provavelmente só existe naquela região porque é o resultado de uma reação química que por lá ocorre e não porque está lá desde o início. E como só os muito ricos em dióxido de carbono conseguem ter o monóxido, só esses objetos são capazes de ter a tal reação química. Logo, esses objetos são intrinsicamente diferentes dos outros, o que se explicaria facilmente se se tivessem formado noutro lugar, mais perto do Sol, tendo sido depois empurrados para a Cintura de Kuiper quando os planetas migraram.

Para usar uma analogia vitivinícola, mesmo aparentemente igual às outras, a uva cultivada nas zonas mais quentes é mais rica em açúcar. Sendo mais rica em açúcar, na fermentação gera mais álcool.

O álcool não existe na uva, é gerado na fermentação do seu açúcar. Uma uva que quase não tivesse açúcar não daria vinho. É de certa forma semelhante o que achamos que se passa com os transneptunianos: os muito ricos em dióxido de carbono conseguem gerar monóxido mas os outros já não. E assim, tal como vinhos do Alentejo são mais fortes do que os do Minho e mesmo sem rótulo na garrafa um enólogo percebe de onde vieram, nós, pelas propriedades de hoje dos objectos do sistema solar tentamos perceber de onde vieram.

Deixe o seu Comentário

O seu email não vai ser publicado. Os requisitos obrigatórios estão identificados com (*).


Últimas

opiniao