Opinião – Bianca Nerlich

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JOAO BOAVIDAJoão Boavida

É uma coisa que ainda nos intriga, embora nos console, não sei se sinceramente se a contragosto. Exímios na arte da autoflagelação, estranhamos quando algum estrangeiro gosta de nós, e ao fim de algum tempo “se sente em casa”, como já ouvi dizer. Desconfiados, resmungamos: pode lá ser?!. Mas vamos acreditando, embora com relutância. É certo que continuaremos a dizer mal de nós, com convicção, e a flagelarmo-nos com evidente prazer, masoquistas e piegas como somos. Continuaremos a dizer mal, para não ter que fazer, e poder continuar a falar e a maldizer.

Vem isto a propósito de uma exposição que está no Centro de Artes e Espectáculos (CAE) da Figueira da Foz, até princípios de Novembro, de uma jovem alemã que vive há dois ou três anos em Portugal.

“Colors of Portugal”. É uma exposição constituída por trabalhos fotográficos sobre paisagens portuguesas: Lisboa, Porto, Douro, Ilha do Pico, mar, céu, areais.

Paisagens portuguesas sobretudo enquanto cor; mas uma cor trabalhada a partir do natural, sem deixar de o ser. Uma cor intensa ou diluída, que vai à procura da cor que está nas coisas portuguesas, que muitas vezes nem vemos, mas que outros olhos, realçando ou esbatendo, fazendo contraste, nos oferecem indo ao encontro da nossa maneira de ser: solar e melancólica, vibrante e depressiva.

Cores contrastantes: azuis fortes, brancos refulgentes, verdes grandiosos do Douro, a Ribeira do Porto encimada pela Sé, numa humanidade luminosa de telhados, varandas e janelas na proeminência orgulhosa daquela encosta única, doiradas tardes onde árvores mortas vêm lavrar a vazante, uma Lisboa ora intensa ora pálida, como a alma portuguesa tendendo ao bipolar, um Pico de enigmáticos lilases, que nuvens vulcânicas parecem ter reativado, etc.

Enfim, uma exposição que não vai à procura das nossas misérias, dos recantos enxovalhados pretendendo fazer disso arte, como às vezes sucede. Não. A beleza, a dignidade, até a monumentalidade de algumas coisas é recuperada e realçada. E a largueza, a profundidade, a distância da nossa ocidentalidade, que temos em abundância, está lá também. E a cor, ainda e sempre, mas trabalhando sobre isso com a técnica e a sensibilidade que fazem da fotografia uma força, uma libertação, um reforço de humanidade.

Deixo para o fim a impagável “Barbearia Centenária” de uma aldeia do Douro – Celeirós. Onde não se sabe o que mais admirar: se a velhice da sala, que parece suspensa da própria decrepitude, se a veemência azul das paredes lutando contra o caruncho que sobe do chão, se a cadeira do barbeiro, atravessando gerações e regimes políticos sem largar o seu posto, se o padre-nosso às virtudes do vinho, em versos de pé quebrado, se a equipa do Carcavelinhos com os avançados deitados pelo chão desde o tempo da bola quadrada, se a vetustez do soalho, com pregos já relutantes, se uma “biblioteca” empilhada num canto da prateleira sob poeira também centenária, se o próprio aparador dos pincéis e das navalhas apoiando o tabique que, por sua vez, o ampara, num matrimónio dos antigos, se o todo da imagem de um Portugal comovente, que ainda nos vai espreitando de idades perdidas em remotos lugares, se, finalmente, a arte de conseguir tirar daquele obscuro espaço a luz extraordinária que de todos os pontos irradia.

Enfim, um modo bem tocante de amar Portugal.

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