Opinião – Os primeiros problemas

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JOAO BOAVIDA novoJoão Boavida

Assinado, com pompa, o tratado que instituiu a União Mediterrânica, seguiram-se os festejos há muito preparados nas capitais dos países fundadores. Programara-se uma semana de festividades e assim foi, em termos oficiais. Mas cada população por si, eufórica por se ver livre do jugo europeu, tomou espontaneamente conta da situação, e dando largas às especificidades lúdicas de cada povo continuou as comemorações por aí fora.

O que foi muito bom e lindo de ver, mas teve o contra de multiplicar por cinco os custos previstos para as festas. Para falarmos em termos de moeda única – e também porque nenhum deles sabia ainda se devia voltar à sua antiga moeda ou inventar outra – estavam previstos cinquenta milhões de euros para foguetes, digamos assim, e afinal gastaram-se duzentos e cinquenta. Isto por junto, embora uns tenham exagerado mais que outros. Com o que criaram o primeiro mal-entendido; mas tudo se compôs porque, libertos agora das tenazes do euro, facilmente resolveriam o problema fabricando uns tantos caixotes de notas de banco.

Mas o pior foi no campo político: começou a haver mal-estar. Não em termos formais, mas práticos e nas entrelinhas. Surgiram sinais de que os países maiores tentavam liderar o processo, um pouco da linha do que tinham aprendido com a Alemanha da senhora Merkel. A Espanha, que sempre se esquece que há outro país na Península Ibérica, não vendo ninguém ao lado nem acima, começou a pensar na sua grandeza, na força da sua economia, na sua língua de quinhentos milhões e na sua posição face ao Mundo de que a União Mediterrânica tinha absoluta necessidade. E em mais trunfos assim à proporção.

Quando isso sentiu, a Itália lembrou que era o berço do Império Romano, afinal a matriz da União Mediterrânica. E quanto à indústria, ganhava, claro, à espanhola. Se Espanha tinha os Seat, a Itália tinha, para esses, os Fiat. E, vamos ver, onde é que se fabricavam os Lancia? E os Alfa Romeo? E quem é que tinha o segredo dos Lamborghini? E desses autênticos mitos que são os Ferrari? Quem? A Espanha que tomasse juízo.

Os gregos, já azedos com a hipótese da entrada da Turquia, ao ver isto, barafustaram dizendo que o Império Romano não passara de uma militarização e uma juridiscialização da cultura helénica, ou seja, de uma redução grotesca, e que eram eles os verdadeiros pais culturais da União Mediterrânica. Respeito, portanto. Se alguém devia estar à cabeça da UM, era a Grécia.

Os portugueses, claro, não se ficaram. Não tinham filósofos nem literatura ou arquitetura clássicas para tanto, mas, além dos autores da ideia da União Mediterrânica, tinham um espírito de aventura como ninguém, eram fura-bolos como poucos, e se ainda não eram quinhentos seriam já trezentos milhões de falantes, o que dava uma enorme barulheira quando havia disso necessidade. E sobretudo, embora mediterrânicos pelo feitio e pela dieta (sólida e líquida) eram também atlânticos. Ou seja, a verdadeira porta para o Mundo; ninguém por certo queria que o Mediterrâneo voltasse a ser um mar fechado, como na Antiguidade. Os tempos agora eram de largueza. Só pelo porto de Sines entraria metade do Mundo… e pelos restantes a outra metade.

Fez-se uma cimeira para ultrapassar o melindre da situação e ficou combinado que se respeitariam a letra e o espírito do tratado: todos iguais, todos diferentes. Houve de novo abraços e banquetes. E mais foguetes. Repuseram-se assim os níveis de otimismo. Cada um, encostado aos outros, ficava mais forte e capaz de resolver os seus problemas, era para isso que as uniões se faziam, embora, cada um por si, fosse pensando que um outro qualquer iria puxar a carroça que o levaria em cima.

 

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