Opinião – Os papagaios pirómanos

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JOAO BOAVIDAJoão Boavida

Quando da crise política de julho passado, o sociólogo Manuel Vilaverde Cabral deu um depoimento ao Público no qual dizia, a certa altura, que «o PS não é capaz de reconhecer a sua responsabilidade na bancarrota». Penso que é aqui, nesta ausência de consciência de culpa, que radica boa parte do problema da atual situação política.

E, é óbvio, no governo de Passos Coelho que lhe facilitou a tarefa. Imprudentes, e deslumbrados com o poder, pensaram que iriam resolver a crise “rapidamente e em força”, e que não precisariam do apoio e da co-responsabilidade do PS. Se tivessem sido mais avisados e cuidadosos, não deixando escapar os socialistas, agarrando-os desde o princípio às suas responsabilidades e procurando o seu apoio para as duras decisões, talvez hoje tivéssemos o tão necessário compromisso partidário alargado, e por certo não assistiríamos à agitação atual e estaríamos mais fortes para resolver as dificuldades

Face à arrogância individualista do poder laranja, o PS esfregou as mãos de contente e foi saindo à socapa, pelas traseiras. E agora aparece como o campeão das alternativas que o não são e da «austeridade com crescimento», que é uma daquelas frases balofas de que o António José Seguro gosta muito e toda a gente anda a repetir, porque, já se sabe, o vírus duma frase feita espalha-se com a rapidez e o perigo de uma pneumónica.

Dir-se-ia que em duas gerações se tinha perdido a moderação e a pertinácia que caracterizava, por bons e maus motivos, os portugueses. Mas ainda não, valha-nos isso. Para lá de todos os erros políticos e abusos “de Lisboa”, há um Portugal que passa ao lado desta bagunça da comunicação social, das manifestações e das centrais sindicais. Trabalha, trata da vida com senso e realismo, vai furando por onde pode e, tendo noção de que se fizeram muitos e grandes disparates, considera que alguém tem de os pagar.

O que nos vale é que empresários (quase sempre mal tratados pelo poderes – político, burocrático, fiscal e sindical – e, obviamente, trabalhadores de muitos géneros e feitios, vão produzindo riqueza e vão exportando, há universidades que investigam, colaboram com empresas, inovam, rompem com a inércia, e é isso que nos dá esperança.

Da maioria dos velhos políticos, e dos muitos papagaios que esvoaçam em volta, que se acham donos do regime e com direito a incendiar plateias, nada de bom há a esperar. Não têm capacidade para aprender com os erros, e ainda menos para perceber que muito do erro está neles. Aliás, no mesmo comentário Vilaverde Cabral lembra que o PS «é a terceira vez que chama o FMI – duas com Mário Soares ( 1978 e 1983 ) e esta com Sócrates». É muita coisa em pouco tempo.

E o pior é que vai já a enfiar-se outra vez pelo mesmo caminho. Não consegue perceber que o tempo da irresponsabilidade já passou, que o da impunidade tem que passar, e que é preciso mudar mentalidades. Voltar ao bom senso que o povo tem. Acabar com as impunidades.

Entretanto Arménio Carlos destronou, nas televisões, Jorge Jesus. Os amanhãs cantantes, que hão de vir, sobrepuseram-se, e com razão, às vitórias vermelhas, que nunca chegam. Lá desembaraçado a falar é ele, muito mais que o outro. Valha-nos ao menos isso.

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