Opinião – A classe política

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JOAO BOAVIDAJoão Boavida

A nossa classe política tem dado, muitas vezes, má conta de si. À direita e à esquerda. No poder ou fora dele. É certo que agora houve uma crise internacional, e que as causas da atual situação nos ultrapassaram, mas nós, e sobretudo os nossos governantes, fizeram muitos erros e deixaram que à conta do Estado houvesse abusos, corrupções, corporativismos e muitas outras formas de delapidar bens públicos. Portanto, a responsabilidade pela situação atual é também nossa, e muito.

Tem faltado gente sensata e intelectualmente honesta. Na governação e fora dela. Não são todos corruptos, claro, mas tem faltado a muitos bom senso e prudência – virtudes tão necessárias.

Além disso, muitos dos nossos políticos parecem ter pouca capacidade de aprender, por muitos anos que vivam e muitas situações de crise por que passem. E não são capazes de detectar os sinais que andam no ar, ou só vêem dum olho. Mário Soares é o exemplo acabado do que digo. Não consegue aprender com os erros. Quando Portugal foi à bancarrota, e ele era primeiro-ministro, teve que usar estratégias iguais às de agora, em situação muito mais favorável, mas, pelos vistos, esqueceu-se do que fez.

E devia ter aprendido a ser prudente. Por muitos erros que o Governo faça, andar por aí a “adivinhar” rebeliões e assassinatos políticos em lamentáveis e perigosas intervenções públicas, é uma triste atitude. O que devia compreender com a sua famosa intuição política, era a saturação que os comportamentos dos partidos, da Direita à Esquerda, já provocam em toda a gente. Em vez de perceber que as pessoas querem compromissos sérios, entendimentos alargados para rumos de ação coerentes e poder reivindicativo no exterior, limita-se a querer derrubar o Governo para lá colocar o PS. Que, é óbvio, irá ter que fazer o mesmo. Ou pior. O seu espírito democrático afinal deixa muito a desejar.

E eu, que nunca votei na Direita, sinto-me envergonhado com a irresponsabilidade e a desonestidade intelectual de boa parte da Esquerda. Porque, de duas, uma, ou adotamos as posições políticas do PC e do BE, ou aceitamos as políticas mais ou menos social-democratas e/ou liberais do mundo capitalista. Andar há décadas a falar em políticas erradas de direita, como, por exemplo, faz o PC relativamente ao PS e PSD, ou numa contestação sistemática e incessante do Bloco relativamente a toda e qualquer medida política, fazendo passar a ideia de que se podia fazer muito melhor, mas nunca dizendo como e o que isso implicaria, é pura demagogia política. Até dava para rir, se não fosse triste.

O que deviam fazer, para esclarecimento geral, tanto o PC como o Bloco de Esquerda, era explicar completamente, isto é, de A a Z, o que implicaria pôr em prática o sistema político que defendem. E isto no que se refere à sua estrutura, vias de acesso ao poder e sua legitimidade, formas da representatividade popular, direitos dos cidadãos, tipo de propriedade (privada e/ou coletiva), liberdades (de associação, de opinião, sindical, religiosa, etc.) bem como as formas de produção, a criação de riqueza e sua distribuição, sem esquecer que estamos num mundo global, e que ou vivemos, produzimos e competimos com os outros, e isso implica capacidade, regras, produtividade, disciplina, ou estiolamos, isolados e passando fome, como na Coreia do Norte.

Escondendo o principal, o que verdadeiramente está em jogo, levam as pessoas ao engano, poluem o ambiente e ajudam à crispação e à desmotivação geral.

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