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ULS de Coimbra: liderar é mais do que anunciar

25 de fevereiro de 2026 às 10 h51
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As mudanças de liderança em instituições complexas raramente se esgotam numa mera substituição de nomes. Representam momentos de expectativa coletiva, de escrutínio silencioso e, sobretudo, de esperança: a esperança de que o que permaneceu adiado possa finalmente avançar, de que decisões estruturais possam ser assumidas e de que o potencial acumulado encontre tradução concreta em resultados.

A tomada de posse da nova direção da ULS de Coimbra situa-se precisamente nesse ponto de equilíbrio entre expectativa legítima e prudência realista. Coimbra continua a constituir uma das mais extensas e exigentes estruturas de saúde do país, com responsabilidades assistenciais, académicas e científicas que transcendem claramente a escala regional. Governar uma organização com esta dimensão e complexidade exige muito mais do que visão estratégica: exige presença efetiva, capacidade decisória e competência de execução sustentada no quotidiano.

Francisco Matos assume agora essa responsabilidade. Médico anestesiologista, com percurso consolidado na prática clínica, experiência em funções de direção e ligação ao universo académico, reúne atributos relevantes para liderar uma instituição hospitalar universitária. Contudo, como invariavelmente sucede nestas funções, o valor do percurso passado será sempre medido pela consistência dos resultados futuros.

O novo Conselho de Administração apresenta uma composição plural, integrando diferentes áreas de experiência e intervenção. Essa diversidade constitui um fator potencialmente enriquecedor, porque a complexidade não se governa a partir de visões unidimensionais, mas aumenta simultaneamente a exigência de coordenação estratégica, alinhamento interno e liderança efetiva.

Importa, aliás, evitar qualquer romantização do contexto. O modelo das Unidades Locais de Saúde permanece estruturalmente pesado, burocraticamente exigente e de governação difícil. A teoria da integração organizacional é sedutora; a realidade operacional revela-se frequentemente fragmentada e turbulenta. Apenas uma liderança próxima do terreno, capaz de escutar os serviços, desbloquear constrangimentos e assumir decisões impopulares quando necessário, consegue produzir transformação verdadeira.

Existe, contudo, uma questão absolutamente nuclear: os Hospitais da Universidade de Coimbra não podem resignar-se a ser apenas mais uma grande unidade hospitalar do país. Possuem história, massa crítica, legado científico e responsabilidade institucional para muito mais do que isso.

É precisamente por isso que a nova liderança enfrenta uma missão que ultrapassa largamente a gestão corrente: recuperar ambição.

Ambição clínica, recolocando Coimbra entre as referências nacionais em áreas de elevada diferenciação.
Ambição académica, reforçando o ensino médico e aprofundando a integração efetiva com a universidade.
Ambição científica, promovendo investigação competitiva, relevante e internacionalmente reconhecida.
E, de forma absolutamente determinante, ambição tecnológica.

A medicina contemporânea evolui a uma velocidade sem precedentes históricos. Inteligência artificial aplicada à decisão clínica, cirurgia assistida por robótica, medicina personalizada, plataformas digitais avançadas, simulação clínica de elevada fidelidade não constituem cenários futuristas, mas sim o presente das instituições que lideram o conhecimento. Hospitais universitários que não incorporam estas ferramentas deixam inevitavelmente de liderar e passam a seguir.
Coimbra já foi liderança. Possui condições objetivas para voltar a sê-lo.
Mas a liderança não se proclama. Constrói-se.

Constrói-se através de investimento criterioso, equipas motivadas, autonomia técnica responsável, organização eficiente e coragem institucional para romper com a inércia que tantas vezes condiciona o setor público.

A nova equipa inicia agora esse percurso. Merece confiança institucional e reconhecimento pelo potencial que representa. Contudo, em saúde, a confiança possui sempre um horizonte temporal limitado: renova-se apenas quando acompanhada por resultados concretos e mensuráveis.
Permitam-me, porém, uma última nota pessoal.

Este foi o hospital onde aprendi, cresci e me especializei. Um lugar que deixou uma marca profunda na minha identidade profissional e humana. Mesmo depois de seguir outros caminhos, permanece uma sensação de pertença difícil de explicar. Talvez por isso a exigência seja maior. Não por nostalgia, mas por responsabilidade histórica.

Os Hospitais da Universidade de Coimbra não nasceram para ser apenas mais um hospital do país.
Nasceram para liderar. E é tempo de voltarem a fazê-lo.

Porque Coimbra, pela sua história, pelo seu talento e pelo seu potencial, merece novamente estar na frente.

Autoria de:

Luís Teixeira

1 Comentário

  1. Sim. A ULS COIMBRA, em especial os HUC, merecem voltar a ser uma referência como em tempo já foram, para que a cidade volte a ser a capital da saúde em Portugal.

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