Tempestades e abraços
Incêndios, apagões, tempestades, ventos, chuvas, inundações…
Diante destas, e de muitas outras realidades, vivemos tempos de precariedade e insegurança, de impotência e de fragilidade. De repente, tudo pode ser diferente: sem luz, sem água, sem comunicações… sem internet.
Nunca estamos preparados para estes acontecimentos, facilitamos sempre muito em relação aos avisos da proteção civil, achamos sempre que nunca nos vai acontecer nada a nós e aos nossos.
Contudo, pode acontecer a todos. Os azares não escolhem nem a hora, nem as pessoas.
Hoje estes acontecimentos não só são cíclicos como, cada vez menos, espaçados no tempo. Começam a não ter o carácter de exceção, nem de pontual.
Recordo apenas alguns desses acontecimentos nos últimos anos: incêndios em Pedrogão Grande e Oliveira do Hospital (2017); tempestade Leslie (2018), pandemia Covid 19 (2020), vários incêndios no verão, tempestade Kristin e inundações (2026)… Preparemo-nos para o que se segue.
Como podemos lidar com todos estes acontecimentos? Como os podemos compreender? Como podemos lidar com a destruição dos nossos bens, com a perda dos que mais amamos, com a notícia de uma doença?…
“Há momentos em que temos de dizer a nós próprios: ‘o mais importante não é compreender, o mais importante é abraçar’ e abraçar até aquilo que não compreendemos. De facto, a grandeza do abraço é que pode muitas vezes chegar onde a compreensão não chega” (Tolentino Mendonça, 2025).
Abraçar a realidade, assumir a fragilidade, aceitar a impotência. Mas num abraço, nasce a compaixão e renasce a esperança. Num abraço unimos corações e superamos egoísmos.
Nestas horas de aflição a humanidade vive a tensão evidente entre o egoísmo e a generosidade, entre o umbigo e as mãos, entre o que me falta e o que posso dar…
Com estas palavras gostava de homenagear todos os que na sua generosidade e cuidado se fazem presentes; os que ajudam a repor a energia, as comunicações e limpam as estradas; os que mantém as instituições de saúde e lares em funcionamento; os que na retaguarda promovem a partilha de bens… os bombeiros, os autarcas e todos os membros da proteção civil.
Para os quem tem fé podemos fazer duas coisas, desde logo: rezar a um Deus que se enche de compaixão e nos abraça nas nossas angústias, dores, incompreensões; e reforçar redes de partilha, de ajuda e de generosidade.
