Substitui o medo por um sonho!
Francisco desafiou os jovens a substituírem a administração dos medos pelo empreendimento de sonhos
Quem não tem medo da vida também não tem medo da morte, foi Schopenhauer quem o disse.
A vida deu-nos a oportunidade do encontro com o Papa Francisco, para mim talvez o maior líder universal dos últimos tempos. Usou a coragem e a frontalidade como as armas para começar a partir pedras de muros que têm de cair e fê-lo sem receio de inimigos, que os teve. E soube ensinar à humanidade que a morte não é a maior perda da vida mas sim que a maior perda da vida é a humanidade deixar-se morrer dentro de si.
Foi na Jornada Mundial da Juventude em 2023, em Lisboa, que na Universidade Católica Francisco desafiou os jovens a substituírem a administração dos medos pelo empreendimento de sonhos. E foi este Papa, que antes de ser Papa era Homem, que depois de ser Papa nunca deixou de ser o Homem sem medo de abrir as portas da Igreja para todos!
Todos…Todos…Todos!…
E que deixou mensagem para que, quando não houver espaço para todos, se force a construção desse espaço para todos, mesmo para os que erraram ou ainda erram.
Sem medo, Francisco recusa que o Homem seja um número, mas quer que ele seja um rosto, uma cara e um coração. O seu ponto de partida foi o de termos de ser amados como somos agora e não como gostaríamos de ser. Recomenda apenas olhar de cima para baixo no único momento em que tal nos é permitido e que é o de ajudar alguém que se queira levantar.
Chamou asséptica a uma vida sem crises, sem sabor, inodora como a água destilada e falou para os jovens, para os velhos e para todos, não se coibindo de referir os maus exemplos da Igreja… e sublinhou o mau testemunho dos escândalos que desfiguram o rosto da Igreja, referindo o grito de sofrimento das vítimas que é fundamental ser ouvido por todos e principalmente, logo de início, pelas autoridades eclesiásticas.
A incapacidade da Igreja para lidar com padres pedófilos foi considerada por Francisco uma vergonha e o comprometimento na luta contra a pedofilia que a Igreja mostrou foi consequência de não assumir a verdade com a frontalidade com que Francisco o fez quando disse que tal não é tolerável mas é ainda extremamente mais grave quando atinge a sociedade eclesiástica.
Foi este Homem que veio “do fim do mundo” … e que os pais queriam que fosse médico mas a que Francisco respondeu que o seria sim, mas médico de almas.
Francisco mudou a Igreja … afastando-se da ostentação e do poder das riquezas do Palácio do Vaticano, abrigando-se na simplicidade da Casa de Santa Marta, procurando sempre contactar ou rodear-se de pessoas de realidades duras, de pessoas fragilizadas, débeis e vulneráveis, de artistas … o que sem dúvida foi contribuindo para a sua formação moral e intelectual.
Herdou o amor da sua mãe através da música lírica, tendo como favoritos, entre muitos, Chopin, Beethoven, Puccini e Verdi. Mas também tinha como favorita música popular, como a de Edith Piaf. Era argentino e sentia o tango e dizia que quando o sentia lhe vinha de dentro … e que a leitura era um vício – na sua cabeceira ocupavam lugar Virgílio, Baudelaire, Dostoiewski e Shakespeare.
Termino plagiando o título de alguém que escreveu um texto de opinião neste Jornal: E agora?
Com um tempo de Vaticano que julgou mais breve mas que o não foi, em que escreveu quatro encíclicas e visitou mais de sessenta países, o Papa Francisco despediu-se dos fiéis no Domingo de Páscoa, “Domingo da Ressurreição”, deixando o pedido escrito de ir para Santa Maria Maior, num lugar térreo na Basílica, dentro de uma urna que transborda de simplicidade e apenas com a palavra Franciscus escrita no solo… porque tinha terminado o seu serviço no Vaticano e o Vaticano não era a eternidade.
E agora? (volto a plagiar).
Quem vai olhar e partir as pedras dos muros que ainda existem?!
