Sem fundos: conseguimos não afundar?
Os números são, à superfície, encorajadores. A economia portuguesa cresce acima da média europeia, o emprego mantém-se resiliente e as empresas revelam confiança no curto prazo. Mas, como tantas vezes acontece, há uma diferença importante entre aquilo que os números mostram e aquilo que realmente significam. Crescer não é, necessariamente, ficar mais forte.
Uma parte relevante do dinamismo recente da economia portuguesa tem origem em fatores que dificilmente podem ser considerados estruturais. A execução de fundos europeus, em particular do PRR, tem sustentado investimento e, consequentemente, atividade empresarial. Ao mesmo tempo, o consumo tem sido impulsionado por políticas públicas e pela evolução dos rendimentos (ainda que os possamos considerar reduzidos). Tudo isto cria uma sensação de solidez que, embora real no presente, levanta dúvidas sobre a sua capacidade de se manter no futuro.
Não é que haja algum problema nos apoios, sejam nacionais ou comunitários. O problema (ou questão-chave) é o que fazemos com eles.
Os fundos europeus em particular, deveriam funcionar como um acelerador de transformação: mais inovação, maior escala, mais diferenciação. Em muitos casos, isso aconteceu. Mas noutros — demasiados na minha opinião — limitaram-se a garantir continuidade. Mantiveram empresas operacionalmente vivas, sem necessariamente as tornar mais competitivas. E é aqui que surge a questão essencial: quando este impulso abrandar, o que fica?
A economia portuguesa continua, em larga medida, assente em modelos de negócio com baixo valor acrescentado, forte dependência de contexto externo e reduzida capacidade de diferenciação. Produzimos bem, organizamos com eficiência, executamos com qualidade. Mas, demasiadas vezes, continuamos dependentes de fatores que não controlamos — o financiamento europeu, a procura externa, a posição que ocupamos nas cadeias de valor.
Durante um período de crescimento apoiado, estas fragilidades tornam-se menos visíveis. Quando o contexto muda, voltam ao centro. A previsível desaceleração do impacto dos fundos europeus nos próximos anos não é, por si só, um problema. É uma normalização há muito anunciada por Bruxelas. O risco está em descobrir-se que, apesar de vários anos de condições favoráveis, pouco mudou no essencial: produtividade, especialização, capacidade de competir sem rede.
Sem o “vento favorável” dos apoios, as empresas terão de responder a perguntas mais difíceis. Como crescem sem estímulo externo? Como defendem margens sem vantagem de custo? Como competem quando o preço deixa de ser o principal argumento? E a verdade é que não é evidente que todas tenham uma resposta.
Portugal tem ativos importantes: talento, empresas ágeis, sectores exportadores relevantes, capacidade de adaptação. Mas isso, por si só, não basta. É necessário transformar essas capacidades em vantagem competitiva consistente — e isso exige mais do que crescimento conjuntural. Exige transformação estrutural.
O fim do “impulso fácil” pode, neste sentido, ser uma oportunidade. Obriga a clarificar o que é essencial e o que é circunstancial. Obriga, sobretudo, a separar crescimento de competitividade — duas ideias que parecem sinónimas, mas estão longe de o ser. Podemos crescer durante anos sem resolver o problema central.
E o problema central é este: sermos capazes de competir sem depender de fatores extraordinários. Sem fundos excecionais. Sem contextos particularmente favoráveis. Apenas com aquilo que criamos, com o valor que acrescentamos e com a forma como nos posicionamos. Se não o fizermos, corremos o risco de olhar para trás — daqui a alguns anos — e perceber que tivemos tudo para mudar, mas optámos por continuar.
Crescer foi possível. Ficar mais forte exige mais, exige compromisso real entre o poder central, as empresas e as pessoas. Esta equação resolve-se com colaboração séria e continuada. Desburocratizar, desonerar; investir, inovar; dedicar, evoluir. Estes termos não são a chave exclusiva para o sucesso desejado, mas farão seguramente fazer parte dele.
Uma última nota de solidariedade para o povo venezuelano, em especial para as comunidades portuguesas e luso venezuelanas atingidas pelo recente terramoto ocorrido naquele País. Força e Coragem.
