Rua das Tecedeiras: preservar a memória, criar futuro
Há nomes de ruas que apenas identificam um lugar. Outros contam histórias. A toponímia pode, por isso, ser mais do que orientação: pode preservar a memória coletiva.
Na Baixa de Coimbra, esta questão ganha particular significado. Ruas, travessas, becos, pracetas e terreiros fazem parte de uma estrutura urbana construída ao longo de séculos, também marcada por heranças islâmicas e moçárabes. Preservá-la não significa congelar a cidade no passado, mas impedir que a transformação conduza à perda da sua identidade.
Uma futura revisão do Plano Diretor Municipal deverá olhar para este património para além dos edifícios classificados. É necessário preservar a escala urbana, a diversidade funcional e o espaço público. Uma cidade histórica não pode perder as suas pequenas ruas, travessas, becos e pracetas através da apropriação ou privatização de espaços que são de todos. Estes lugares discretos são parte da estrutura urbana e da memória da cidade. Devem continuar públicos, acessíveis e integrados na vida coletiva. A Baixa com habitação, comércio, serviços, pequenas oficinas e atividades produtivas. Uma cidade histórica não pode ser apenas cenário para visitar. Precisa de continuar a ser cidade para viver, trabalhar e criar.
É neste contexto que podemos olhar para uma pequena rua e perguntar: não poderíamos homenagear aqui as tecedeiras de Almalaguês?
Aproximava o coração da cidade de uma comunidade que preservou, durante gerações, um saber feito de técnica, trabalho e criatividade. Falar das tecedeiras de Almalaguês é também falar de mulheres. Durante séculos, o trabalho feminino desenvolveu-se no espaço doméstico, contribuindo para a economia familiar sem o devido reconhecimento. O tear era instrumento de produção, rendimento, autonomia e transmissão de conhecimento.
Este património tem sido estudado por investigadores como Ana Pires, António João Gomes e João Pinho e valorizado pela Associação Herança do Passado e o Grupo Folclórico e Etnográfico “As Tecedeiras de Almalaguês entre outros. O Município reconheceu esta importância através do projeto “Almalaguês: tecendo o amanhã a partir da tapeçaria do tempo”, distinguido com o Prémio Europa Nostra 2025.
Patrimonializar não pode significar apenas guardar. Um património imaterial permanece vivo quando continua a ser praticado e transmitido. A proposta poderia ser concreta: atribuir a uma rua da Baixa o nome Rua das Tecedeiras e criar aí um pequeno Centro/Atelier de Tecelagem de Almalaguês. Uma oficina aberta, com tear em funcionamento, demonstrações, formação, atividades com escolas e venda das peças produzidas. Um lugar para conhecer, experimentar e aprender
Esta tradição ainda tem rosto: tecedeiras como Cristina Fachada demonstram que a tecelagem de Almalaguês continua viva. Criadores como Victor Costa mostram como os saberes tradicionais podem dialogar com a criação contemporânea. A Rua das Tecedeiras poderia ser mais do que uma placa: uma ponte entre Coimbra e Almalaguês, entre memória e criação, entre o urbano e a cintura periurbana de aldeias que contribuem de diferentes formas para a cidade.
E talvez esta seja a questão essencial para a Baixa: preservar não é apenas impedir que desapareçam edifícios. É garantir que permanecem os espaços públicos, os usos, as atividades, as pessoas e as histórias que fazem cidade. Porque nesta cidade também se teceu a história pelas mãos de mulheres.