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RUASofia (II) Uma rua não acaba no fim da rua

28 de setembro de 2026 às 09 h30

Retirar a circulação automóvel particular da Rua da Sofia pode melhorar o funcionamento do metro-bus, libertar espaço público, reduzir conflitos com os peões e proteger um conjunto urbano excecional. São ganhos importantes. Mas a transformação da rua também obriga a olhar para o que acontece para lá dela.

Para quem continua a precisar do automóvel, a mudança implica procurar outro percurso. Foi para perceber origens e destinos e testar diferentes cenários que o Município mandou estudar a reorganização do trânsito na Baixa. Esse estudo ajuda a responder à pergunta “E agora, como vou? Mas também importa perguntar: o que torna tantas deslocações dependentes dos automóveis?

Uma coisa é reorganizar a circulação na Baixa. Outra é reorganizar a mobilidade que produz essa circulação.

Há semáforos a mais em Coimbra? Provavelmente. Carros a mais, não tenho dúvida de que há. Não porque os automobilistas tenham decidido usar demasiado o automóvel, mas porque a forma como organizámos a cidade e o território tornou muitas deslocações difíceis de realizar de outra maneira.

Por isso, perguntar de onde vêm e como se deslocam as pessoas que procuram a Baixa leva-nos aos lugares onde vivem, trabalham, estudam e encontram serviços. Obriga-nos a discutir os transportes públicos, as articulações entre si, os percursos a pé e de bicicleta e a localização do estacionamento. Assim, a Rua da Sofia revela-se maior do que o espaço que ocupa.

Estas relações prolongam-se para além dos limites do concelho. Onde são pensadas em conjunto? O Plano de Mobilidade Urbana Sustentável de Coimbra deve ajudar a construir uma estratégia e a dar coerência às decisões que a concretizam. Mas a mobilidade depende também das escolhas sobre habitação, emprego ou equipamentos. A soma de planos sectoriais não produz, por si só, um projeto de cidade.

É aqui que a transformação da Sofia nos coloca diante de uma questão maior. Conseguimos reconhecer, nas decisões que vão sendo tomadas, um projeto para Coimbra? Onde está expresso? Como se relacionam uma intervenção numa rua, uma operação de habitação, uma nova infraestrutura e o futuro das freguesias rurais? Como podemos conhecer as prioridades e discutir as escolhas?

Uma cidade terá sempre de decidir todos os dias. O problema surge quando vemos as decisões, mas não conseguimos reconhecer o projeto que lhes dá coerência.
Também a nós cabe perguntar se queremos conhecer a Coimbra que está a ser construída. Procuramos compreender as relações entre as mudanças ou discutimos cada uma apenas quando interfere com o nosso percurso, a nossa rua ou a nossa casa? Querer saber exige informação acessível, mas exige também disponibilidade para olhar para além do que nos afeta diretamente.

A Rua da Sofia não acaba na Praça 8 de Maio nem na Rua João Machado. A sua transformação convida-nos a percorrer estas relações e a discutir o que delas resulta. Depois de perguntarmos que Rua da Sofia queremos, precisamos de perguntar: que Coimbra estamos a construir?

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