Baixa de Coimbra: o que estamos a esquecer?
Os últimos meses trouxeram notícias com potencial para transformar profundamente a Baixa de Coimbra. Os autocarros da Metro Mondego já atravessam a Baixa e percorrem a frente ribeirinha. A Critical Software iniciará em breve as suas atividades na antiga Coimbra Editora. Uma nova residência universitária junto ao Bota Abaixo trará mais estudantes. A Câmara Municipal está a comprar o Colégio de São Boaventura e celebrou um protocolo que permite usar parte do Quartel da Graça.
Cada notícia, isoladamente, é positiva; as três últimas podem reforçar a presença universitária na Baixa, associada à ideia de “Polo 0” da Universidade de Coimbra. Mas há uma pergunta ainda sem resposta: o que acontece quando juntarmos tudo isto?
Mais trabalhadores, estudantes, atividades universitárias, transportes públicos, novos usos em edifícios classificados e maior procura de comércio, serviços e habitação vão alterar significativamente a vida da Baixa. Mas que sentido conjunto queremos dar-lhes?
Ter muitos projetos na Baixa não é o mesmo que ter um projeto para a Baixa. E talvez devêssemos começar por discutir o que entendemos por “Baixa”. Se falamos da área central do centro histórico, o conjunto é, no mínimo, constituído pelas duas margens do Mondego. O rio não deve ser uma fronteira, mas um elemento que liga as duas margens. Pensar a Baixa apenas na margem direita é abordar apenas uma parte do problema… e das oportunidades.
Talvez seja aqui que começa aquilo que chamaria “esquecimento coletivo”.
A cidade é uma obra coletiva e, por isso, uma forma concreta de espacialização da democracia. Mas fomos esquecendo que também somos responsáveis pela construção do nosso futuro. Habituámo-nos a esperar que as Câmaras e os seus técnicos nos digam o que deve acontecer e, muitas vezes, só recuperamos a condição de cidadãos quando a solução já está desenhada.
Então reagimos ao que nos desagrada: ao trânsito, ao estacionamento, à árvore abatida, ao espaço público que não funciona. Mas a cidadania começa antes, quando ainda é possível discutir o problema, o programa, os objetivos e o sentido das transformações. Os especialistas são indispensáveis, mas não podem substituir-nos na definição de um futuro comum.
Uma cidade não é uma soma de projetos. Nem uma rua, nem um bairro, nem a Baixa de Coimbra. A qualidade do conjunto depende da relação entre as partes e da capacidade de lhes dar um sentido coletivo.
Pois bem, talvez seja este o nosso maior esquecimento: a cidade não é o que outros fazem por nós. É o que podemos fazer juntos. Porque não nos esquecemos apenas das experiências que vivemos; podemos esquecer também aquelas que ainda podemos construir.
Construir Coimbra coletivamente é uma delas.
É assim que as cidades se tornam faróis da democracia.
Não nos podemos esquecer disso.

