Rua da Sofia (I) Uma rua não é apenas uma rua
No dia 10 de setembro, a Rua da Sofia acordou diferente. A circulação automóvel particular deixou de a atravessar e, como seria de esperar, a mudança não passou despercebida. Há quem a celebre, há quem a conteste, há quem tema os seus efeitos sobre o comércio e há ainda quem pergunte simplesmente por onde deve agora passar. Porém, a primeira pergunta a fazer talvez devesse ser outra: o que estamos a transformar quando transformamos a Rua da Sofia?
A Rua da Sofia não é uma rua qualquer. Não é uma soma aleatória de edifícios em que, por acaso, alguns estão classificados. A própria rua é um facto urbanístico extraordinário. Desenhada no século XVI para acolher os colégios associados à instalação definitiva da Universidade em Coimbra, transformou profundamente a estrutura da cidade e hoje constitui uma das duas componentes do bem Universidade de Coimbra — Alta e Sofia, inscrito na Lista do Património Mundial.
Não estamos, portanto, apenas perante fachadas e edifícios que importa conservar. Estamos a falar de um bem cultural cuja valorização exige atenção a tudo o que o conforma: espaço público, circulação, comércio, escritórios, habitação, possibilidade de a atravessar ou nela permanecer. Tudo isto contribui para a forma como este património é vivido.
A sua gestão está confiada à RUAS (Recriar a Universidade, Alta e Sofia), associação que reúne, entre outros, o Município e a Universidade. Cabe, por isso, perguntar que papel desempenhou a RUAS neste processo e que papel desempenhará na construção do futuro da Rua da Sofia.
A ideia de reduzir substancialmente o trânsito na Sofia não nasceu em 2026. Em 2012, o programa da ARU Coimbra Rio incluía o projeto estruturante “Polo 0 — Rua da Sofia”, associando a redução ou supressão do tráfego automóvel à recuperação do edificado, à qualificação do comércio e do espaço público e a melhores condições para os peões.
Esta distinção é muito importante: retirar o trânsito automóvel da Rua da Sofia é uma decisão de mobilidade. Transformar a Rua da Sofia é um projeto urbano.
Um projeto urbano relaciona o património, o espaço público, a habitação, o comércio, a mobilidade e os usos. Obriga também a perguntar quem participa na sua construção. Foi nesse sentido que, em junho, a sessão Sofia em Transformação foi apresentada como ponto de partida para um processo alargado de reflexão participada.
Importa agora saber o que aconteceu depois: que contributos foram recebidos, como foram ponderados e que influência poderão ter no que está a ser pensado para a Rua da Sofia. De facto, a participação só ganha sentido quando deixa marcas no processo. Uma das medidas da qualidade da participação pública é, precisamente, conseguirmos identificar o que mudou porque participámos.
Visto assim, a alteração da circulação pode ser menos o fim de um processo do que o início de uma nova fase: aquela em que Município e Universidade – através da Associação RUAS –, comerciantes, residentes e todos aqueles que queiram põem em relação conhecimentos, responsabilidades e expectativas diferentes sobre a Rua da Sofia.
É aqui que a RUAS pode fazer jus ao seu próprio nome: não apenas gerir o que são hoje a Alta e a Sofia, mas também ajudar a recriá-las.
A questão já não é, portanto, apenas saber se concordamos ou não com o que aconteceu no dia 10 de setembro. A pergunta mais interessante surgiu no dia seguinte: o que queremos que aconteça agora na Rua da Sofia e quem queremos que participe nessa construção?
