Quando o património se torna motor de futuro (parte II)
No artigo anterior, defendi que a reabilitação da icónica Estação Nova é uma excelente notícia para Coimbra: recupera um ativo patrimonial e pode gerar um novo eixo urbano com elevado potencial estratégico. O Convento São Francisco e o Lufapo Hub são, neste contexto, referências incontornáveis: dois espaços requalificados que se tornaram alavancas de futuro, verdadeiros polos de cultura, inovação e desenvolvimento económico.
Descurando o “pormenor” de que o futuro deste local emblemático foi definido sem auscultação prévia da população — ao contrário do que o anterior Executivo pretendia —, a cedência pela Infraestruturas de Portugal ao Município de uma área superior a 5.000 m2, por meio século, abre caminho a um projeto ambicioso, a concretizar de forma faseada.
Numa primeira etapa, o edifício será a sede da nova Agência Municipal GoCoimbra, que sucede ao iParque na captação de investimento nacional e estrangeiro e se propõe assumir um papel de catalisador económico do concelho, apoiando o ecossistema empreendedor e as empresas inovadoras, geradoras de emprego qualificado. O passo seguinte é a sua reabertura à cidade, conjugando atividades diversas (comércio, restauração, exposições…) com uma praça pública na zona outrora ocupada pelas plataformas ferroviárias.
Inspirado nas melhores práticas nacionais e europeias, o edifício requalificado integra-se também de forma natural na reconvertida frente ribeirinha — amiga do ambiente, sem tráfego automóvel, que promove o convívio, a socialização e a prática de desporto, com percursos pedonais contínuos e uma extensa ciclovia. Um reencontro com o rio que faz ainda mais sentido quando o MetroBus começa a afirmar-se como um sistema estruturante de mobilidade, capaz de elevar a qualidade de vida em Coimbra e de se estender à margem esquerda e zona sul através de uma nova travessia do Mondego.
Mas o sucesso do projeto não está garantido à partida. Dependerá sempre de uma execução muito criteriosa que assegure a sustentabilidade da intervenção e maximize o seu impacto económico, social e urbano. Na verdade, a reconversão do edifício implica um investimento municipal de 16 milhões de euros ao longo de sete anos, vinculando pelo menos dois executivos autárquicos. Trata-se de um esforço avultado que exige compromisso político e responsabilidade pública, o que requer planeamento rigoroso, fontes de financiamento claras, previsões realistas do retorno esperado e total transparência na gestão e modelo de governança do equipamento.
Preservando a sua memória, que atravessou várias gerações, a Estação Nova deve ganhar vida e alma próprias: ser utilizada diariamente por quem aqui vive, estuda e trabalha; oferecer uma programação cultural regular; e dialogar com o comércio local, contribuindo assim para revitalizar a Baixa. Porque esta é uma oportunidade única para criar uma nova centralidade: um espaço aberto, dinâmico e inclusivo, onde Coimbra se reconhece e se encontra!


