“Promiscuidade Laboral” – Uma opção política, não dos Médicos!
A expressão “promiscuidade laboral” ou dual practice tem sido usada para descrever médicos que trabalham no Serviço Nacional de Saúde (SNS) e no privado. É uma expressão cómoda: simplifica uma realidade complexa e atribui aos médicos responsabilidades que pertencem, sobretudo, às opções políticas dos diversos governos, nomeadamente desde 1990.
Mais precisamente, em 1992 assistimos à erosão de pilares fundamentais, como o fim da dedicação exclusiva, da estabilidade contratual e da progressão profissional. Inicia-se, em 1996, a precariedade dos médicos no final das especialidades, concursos irregulares, baixos salários, multiplicação das horas extraordinárias, recuperação de listas de espera e uma verdadeira epidemia de prestação de serviços por empresas.
Os dados são claros. Mais de metade dos médicos do SNS acumulam trabalho no setor privado, incluindo a grande maioria de diretores de serviço, enquanto apenas 31% manifestam intenção de permanecer no serviço público. Estes números não revelam uma falha moral, mas sim um SNS que já não consegue oferecer condições que promovam o regime de dedicação exclusiva e a retenção dos médicos por reais opções políticas legislativas.
Neste contexto, a acumulação de vínculos não é o problema a resolver. É a consequência inevitável de um SNS fragilizado por anos de subfinanciamento, má gestão, incapacidade de qualificar a despesa pública e de estruturar carreiras que fixem e valorizem os profissionais.
À semelhança de Portugal, temos Inglaterra e Itália como dos países com mais dual practice na Europa. Cerca de 60% dos médicos que trabalham no Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido (NHS) também exercem atividade privada.
Felizmente, este trio europeu é uma exceção, ao contrário do que nos é “vendido”. É verdade: nos restantes países europeus e no Canadá é explicitamente proibida a acumulação de funções, impondo incompatibilidade total em cargos de direção e proibindo o uso de recursos públicos para fins privados.
A França tem um modelo público–privado, considerado um “sistema de dois níveis”, onde a dimensão privada existe, mas é muito regulada e integrada no sistema estatutário de seguro de saúde, obrigando os médicos a optar por trabalhar num único setor.
À semelhança da França, a Alemanha tem um sistema de saúde fortemente misto (público + privado), onde os médicos hospitalares são assalariados, não acumulando atividade privada. A prática ambulatória (clínica) privada e liberal é feita por médicos instalados (niedergelassene Ärzte), que também só podem trabalhar no setor privado/convencionado.
Já a Holanda é conhecida por ter um sistema altamente regulado, baseado em seguros obrigatórios privados, mas fortemente supervisionados pelo Estado. A maior parte dos médicos trabalha em organizações integradas (hospitais, grupos de cuidados, práticas de clínica geral) e, mesmo que sejam entidades privadas, a prática está toda dentro do “sistema público” financiado por seguros regulados, não existindo acumulação de funções.
Nos países nórdicos (Noruega, Suécia, Dinamarca, Finlândia e Islândia), o financiamento, a contratação e a organização dos cuidados são públicos, e os regimes profissionais são contratualizados com autoridades públicas regionais e municipais (dependendo do país), não sendo permitida a acumulação de funções.
Voltemos a Portugal. O absurdo é total: os negócios da doença, pagos por contratos milionários com o Estado e por um mercado construído à custa do colapso do SNS, usam esse poder económico para roubar diretamente os médicos que o Estado formou, enquanto os sucessivos governos fomentam a promiscuidade.
A questão essencial é outra: queremos um SNS capaz de reter profissionais ou um SNS dependente de acusações morais para justificar a sua erosão? Um serviço público forte exige condições de trabalho dignas, carreiras valorizadas e uma articulação público–privado regulada. Sem isso, qualquer discussão sobre a dedicação exclusiva será apenas retórica — e tarde demais.
No fim, a escolha é simples: ou o Estado regula, paga melhor e obriga os negócios da doença a contribuir para o SNS que estão a destruir, ou rende-se e assiste, de braços cruzados, ao funeral lento e asfixiante do SNS público e universal.

Sendo o Sr. alguém que muito estimo, pela qualidade dos seus valores, e concordando em boa parte com aquilo que sempre tem dito e escrito, devo contudo apontar-lhe que os da sua classe também enfermam de males bem mais matriciais, males de valor. Dos da moral e da ética. Vejamos o seguinte exemplo de colega sua, a exercer no privado, e sendo já muito bem paga. Dra. X-GO, especialista, exerce em grande e mui poderosa unidade privada. Durante as suas consultas de G-O, tendo a possibilidade de oferecer e direccionar as suas pacientes para opções de tratamento validadas empiricamente, com menor custo e salvaguardando o seuss interesse que serão, supomos racionalmente, o da promoção, prevenção e manutenção da sua saúde, opta por insistir, a título de proposta benigna, bem intencionada, mas quase na modalidade de aconselhamento impositivo, do tipo passivo-agressivo aligeirado, um tratamento pioneiro, na sua própria clínica de luxo privada, fora da grande unidade de saúde privada onde labora em modalidade apressada, tratamento não validado empiricamente de modo robusto, na módica quantia de 1800€ por 6 sessões desse tratamento revolucionário maravilhoso que assevera, é eficaz, muito mais do que os acessíveis e módicos tratamentos farmacológicos, sendo que as suas pacientes poderão necessitar de sessões de reforço para consolidar a “coisinha”. Esta proposta, sem duvida benfazeja, é inclusive apresentada em consulta, na presença dos candidatos em formação na especialidade, para que se possam ir acostumando à cartilha dos valores negociais da nobre profissão da Medicina. E é assim, caro Sr. Médico, pessoa que muito estimo pelos valores no e pelo exercício da profissão da Medicina, que muitos dos seus colegas caminham o caminho da enfermidade. Enfermos, com males de valor, ética, e coração, enfermando da saúde e do bolso, as suas e seus pacientes. Bem haja e si, a outros como o Sr., e Feliz Natal. 🙂