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Opinião: Viver no Espaço – Parte 1

03 de julho de 2025 às 12 h04
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Acordo ao som suave de passarinhos simulados e com o nascer do sol reproduzido por uma faixa de LEDs que gradualmente ilumina a cápsula. A gravidade artificial, gerada pela rotação lenta do anel habitacional, permite-me espreguiçar com o conforto de sempre, como se estivesse em casa, em Viseu. O colchão adapta-se à posição do corpo e monitoriza o sono. Dormi sete e cinquenta minutos. Nada mau.
O pequeno-almoço é simples, mas fresco: maçã e alface da estufa do módulo Q1, com um ovo reidratado. Os “novos ovos”, produzidos por microrganismos modificados na fábrica do módulo Q3, são bem bons. O pão, mais denso para evitar migalhas soltas, é feito com fermentação natural e cozido no forno de infravermelhos montado no exterior, mas com acesso interno. Leva farinha proteica de grilos do módulo Q2 — e o cheiro a pão quente é o mesmo! O café ainda é um luxo importado da Terra. Muito mais caro. Mas ninguém abdica do ritual.
A Terra vê-se da janela: um berlinde azul e branco que traz saudade. Da janela oposta, vejo a Lua. Uma coincidência que só ocorre uma vez por semana nesta órbita excêntrica. No ponto perilunar, estamos mais perto da superfície — e vêem-se tantas crateras!
Atravesso o corredor curvo até ao posto de comando ambiental, no módulo A. Verifico manualmente CO₂, humidade, temperatura. A estufa no Q1 e os tanques do módulo O são o coração vivo da estação. Sem eles, não é possível nada disto. A água é reciclada em circuito fechado. Nada se perde, tudo se transforma, como diria Lavoisier. Trocado por miúdos, o suor de ontem é a água do café de amanhã.
Hoje, como quase sempre, dedico três horas à manutenção dos sistemas vitais no módulo O. Os tanques de spirulina e chlorella, que purificam o ar e geram nutrientes, precisam de supervisão. Houve acumulação de biofilme no reator 2B. O robô limpa, mas gosto de ver com os meus olhos.
À tarde, treino no ginásio giratório com pesos reguláveis — gravidade simulada a 0.8G. O corpo aqui precisa de ser cultivado com a mesma atenção que as hortas.
Depois, falo com a família. O atraso de 1,3 segundos já não me incomoda. Jogamos holograficamente — um tabuleiro de estratégia com peças que se movem no ar. Ganho. Finalmente.
Antes de dormir, leio um capítulo do meu livro — papel digital regravável, uma invenção recente que substituiu os ecrãs para quem, como eu, ainda gosta do virar de uma página.
Programo o sistema para simular a noite. Ouço, ao longe, o zumbido dos ventiladores, modificado para soar a cigarras. O som da sobrevivência — e do campo. E adormeço a pensar: amanhã, a aventura recomeça.

Autoria de:

Pedro Lacerda

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