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Opinião: Terremoto eleitoral, esquerda e resistência

31 de maio de 2025 às 10 h48
2 comentário(s)

As últimas eleições legislativas provocaram um terremoto no regime democrático. Jamais, desde as eleições para a Constituinte em Abril de 1975, o conjunto da esquerda obteve uma representação tão escassa no parlamento, tendo, além disso, desaparecido o tendencial bipartidarismo constante nos últimos cinquenta anos. Para além da acentuada perda do apoio eleitoral concedido aos partidos da área plural da esquerda, com a exceção do Livre, o mais significativo e perturbante foi, sem dúvida, o crescimento exponencial de uma extrema-direita fundada na rejeição dos valores essenciais do Portugal nascido com a Revolução dos Cravos. Mais preocupante ainda: o reconhecimento do ambiente que produziu esta situação e o inventário dos seus traços essenciais fazem temer que a nova ordem política de modo algum seja passageira.
Destaco cinco desses traços. O primeiro remete para o contexto global da rápida ascensão da extrema-direita populista e xenófoba, apoiada no território de influência e manipulação das televisões e das redes sociais. O segundo supõe a instalação, numa sociedade desigual e instável, sobretudo entre parte significativa do eleitorado mais dependente e menos informado, de um recuo da luta social e de um clima de desesperança que o torna presa fácil de quem esgrime o ressentimento e o medo. O terceiro traduz-se num afastamento, sobretudo junto dos mais jovens, da aceitação das políticas democráticas de coesão e solidariedade, trocadas pela sobrevalorização do individualismo e da competição. O quarto traço consiste no recuo público da dose de conhecimento do passado que permite compreender o património das grandes conquistas políticas e sociais, impedindo a repetição de logros e erros. E o quinto refere-se à preocupação, sem respostas à altura, com a atual política agressiva e belicista das superpotências e dos seus aliados.
Tudo isto se tem acentuado na última década, tendo a resposta dos partidos de esquerda – por cá, como em outros lugares da Europa – sido muitas vezes frágil, oscilante e dispersa, com escolhas que pouco contrariam estas tendências. Desde logo, as políticas de cooperação interpartidária, que devem assentar em metas comuns, têm sido curtas e limitadas, por troca com a desconfiança ou um confronto destrutivo entre as identidades partidárias. Além disso, os partidos da «esquerda da esquerda» têm fundado a sua atividade numa lógica sindical e de protesto, dimensão indispensável que não pode excluir a apresentação de alternativas estruturantes claras e mobilizadoras. Por sua vez, o PS, com responsabilidades maiores, tem mantido um perfil burocratizado e sinuoso, apoiado em personalidades e grupos, sem projetar uma ideia coletiva de futuro progressista e mobilizadora. Todos têm, entretanto, privilegiado o trabalho político partidário em detrimento da pedagogia da cultura crítica e da cidadania, assim deixando campo livre para a direita. Têm também menosprezado duas áreas fulcrais: a instável e perigosa ordem internacional, e a situação dos mais jovens, escutando-os nos seus interesses e linguagens. Não esquecendo a efetiva menorização, fora dos momentos simbólicos, da história e da memória como alimento da democracia, contra a mentira e o esquecimento propagados pela extrema-direita.
Nestas condições, e nesta nova fase, que se antevê prolongada, importa não esperar alterações rápidas e substanciais daquelas tendências dominantes, pois infelizmente elas não irão ocorrer por um passe de mágica. Todavia, a esquerda portuguesa tem na sua matriz um longo lastro de décadas de resistência, marcado pela disseminação de uma cultura solidária e de uma mundovisão plural que tinha as pessoas, não um determinado grupo – e a solidariedade, não o egoísmo – no seu centro. Foi também essa persistente e brava cultura de resistência, não apenas a atividade política ou a conjuntura, que permitiu, como escreveu Sophia, alcançar «o dia inicial inteiro e limpo / onde emergimos da noite e do silêncio». A história não se repete, mas pode ser exemplo.

 

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2 Comentários

  1. António Simões diz:

    No essencial estou de acordo, mas não esquecer que, os ditos partidos do arco da governação, tiveram grande responsabilidade, pois não têm sabido alimentar as legítimas aspirações dos eleitores, corrupção, mentiras, más escolhas, levando ao descrédito e ao apoio destes populistas perigosos! Mais, uma abstenção muito alta muitos anos, nunca foi estudada o que leva a concluir que também isso levou ao atual estado das coisas!

  2. Miguel Coimbra diz:

    O mais engraçado é que se “os ditos partidos do arco da governação tiveram grande responsabilidade”, de onde é que vem estes novos “salvadores”? Desses mesmos partidos! Como se diz na minha terra: A merda é a mesma, o cheiro é que é diferente.

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