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Opinião: Quão frágeis somos?

05 de abril de 2025 às 10 h30
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Desde que a série “Adolescence” foi lançada, não se fala de outra coisa. A história de Jamie Miller parece ter despertado o mundo para o misterioso universo dos adolescentes e para temas como a relação pais-filhos, o bullying e o ciberbullying, os códigos secretos dos adolescentes, o mundo online e a excessiva utilização de redes sociais, com os seus conteúdos violentos. E, no meio disto tudo, uma pergunta: quão bem conhecemos os nossos filhos?
A história conta-se assim: uma pequena cidade inglesa fica em choque com o assassinato de Katie, de 13 anos, e o choque é ainda maior, quando a polícia invade a casa da tranquila família Miller e prende o filho mais novo, Jamie, como principal suspeito. O adolescente passa rapidamente de suspeito a acusado e fica detido. Segue-se a investigação, as visitas à escola, as conversas com família, amigos e colegas e as sessões com uma psicóloga. Embora nunca se chegue a perceber porque é que Jamie o fez (há horrores incompreensíveis) elencam-se, ao longo da trama, algumas causas: um miúdo vítima de bullying na escola, sob influência da subcultura incel, que passava tempo demais nas redes sociais, transforma-se numa panela de pressão – e um dia explode.
A adolescência é um período de grande desafio para filhos e pais. Se, por um lado, os miúdos estão a tentar descobrir quem são, à procura de uma definição de si, por outro lado, os pais começam a vê-los crescer e entrar numa fase de grande confusão e indefinição, sentindo por vezes que os filhos vivem numa bolha onde eles não têm lugar. Este fenómeno não é propriamente novo: os filhos sempre se afastaram dos pais durante a adolescência. É desgastante e assustador, mas vem com as funções: a adolescência sempre foi um caminho de pedras – para todos os envolvidos. E os caminhos de pedras atravessam-se sempre da mesma forma, em todas as relações: com Amor. E com tempo, calma, compreensão e diálogo. Acho que é isto que nos toca tanto nesta série: a constatação da nossa impotência e da nossa vulnerabilidade. A família Miller não era uma família disfuncional. Havia ali amor, preocupação, cuidado. Um Pai e uma Mãe focados em conseguir que os filhos estivessem bem e felizes. Vemos ali dois pais que se preocupavam com os filhos, que trabalhavam para lhes poder dar o que eles não tinham tido. Trabalhavam demais? Sim. Mas não trabalhamos todos demais? Não estamos todos em constante dívida – ou para um lado ou para outro – quando chega o momento de fazer o balanço entre a vida profissional e a vida pessoal e familiar? Alguém consegue estar em todo o lado, ao mesmo tempo, a cem por cento? Eu não consigo.
Acho que uma das principais falácias da parentalidade é a ideia de que tudo o que acontece aos filhos – seja bom ou mau – é responsabilidade dos pais. Temos muita responsabilidade e um papel essencial, mas a verdade é que, a partir de dada altura, controlamos muito menos do que imaginamos. E, quando essa altura chega, é preciso que os miúdos vejam nos pais um espaço de diálogo aberto e sem julgamento, um refúgio onde podem sempre abrigar-se, quando o mundo lá fora ficar feio, mau e confuso. Quando deixamos que este espaço de refúgio seja preenchido pelo mundo virtual, estamos a entregar o destino dos nossos filhos à sorte. É por isso que é tão importante estar atento: porque há um país desconhecido dentro de cada um deles e, apesar de impensável, um miúdo de rosto angelical e com medo de agulhas, pode ser capaz de esfaquear uma colega, a sangue frio, se não o abraçarmos a tempo. Neste mundo novo, o facto de eles estarem dentro do quarto já não garante segurança. O nos toca tanto nesta série é o facto de um miúdo tão amado poder fazer uma atrocidade daquelas. E é preciso vê-la com grande humildade: podíamos ser nós, ali, porque é fácil – demasiado fácil – distrairmo-nos do essencial, quando somos engolidos pela máquina voraz do quotidiano. Adolescence questiona-nos do princípio ao fim. Se estivermos atentos, ouvimos a sua principal pergunta sussurrada na música que Sting emprestou à série: how fragile we are?

Autoria de:

Martha Mendes

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