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Opinião: “Orgulho surdo (II)”

12 de abril de 2025 às 13 h21
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Bissaya Barreto foi um médico e humanista com uma enorme atenção às populações mais vulneráveis, as crianças, os surdos e os cegos, para referir apenas os que entraram no meu espaço profissional. A imagem dos surdos de BB era simplesmente dantesca, como descreve na sua Obra Social. Mas, ao reunir uma comunidade de surdos por onde passaram mais de 600 crianças e jovens, criou as condições para a emergência da LGP, juntamente com as escolas de surdos de Lisboa e Porto. O ser humano, em comunidade, é automaticamente gerador de linguagem. Oral ou gestual, conforme as circunstâncias.

A medicina da surdez, da maior importância no espaço da saúde pública, tem sido ensombrada pela indústria dos implantes e dispositivos de audição, de tal modo, se me é permitido ser irónico, que os maiores inimigos da medicina do ouvido e da audição são os ouvintes, que não fazem implantes nem usam aparelhos acústicos, apesar de toda a publicidade que nos entra em casa a toda a hora e momento e nos agride até à náusea.

Na perspetiva da escola e das aprendizagens, os implantes cocleares aparecem muitas vezes como inibidores do normal desenvolvimento da criança, no período em que é mais fecundo o processo de construção da linguagem, suporte determinante da organização da mente.

Pude observar crianças surdas na Dinamarca e sobretudo na Suécia, os países onde a escola gestual cresceu de forma mais sustentada e competente. A Dinamarca pôs fim à escola oralista em 1980, após o reconhecimento da Língua Gestual Dinamarquesa, separando claramente as crianças com resíduo auditivo suficiente para a escola oral, das crianças surdas que orientou para a escola Gestual. Em Estocolmo ficaram-me sobretudo duas imagens que marcam: a das crianças surdas gatinhando num espaço aberto na maternidade do Hospital central, com a presença de pais e mães e acompanhamento de educadoras que se intrometiam e interrompiam o trânsito para a comunicação gestual que se desenvolvia sem qualquer inibição ou atropelo. Por volta de um ano gestuavam, ligeiramente mais cedo que a comunicação oral porque as imagens visuais são mais rápidas que as orais. Outra imagem que não esqueço é a de uma classe de seis anos na Escola de Surdos, na periferia da capital, com uma riqueza de imagens visuais tão sugestiva que as crianças aprendiam a ler, passe o exagero, porque não havia nada que não tivesse colada a palavra escrita correspondente. Tudo tinha uma etiqueta no mundo das coisas e objetos que seria integrada no processo de aprendizagem na altura mais conveniente. Fui apresentado a estas crianças e fui bombardeado com mil perguntas que revelavam um desenvolvimento inimaginável na altura numa escola de surdos portuguesa. Implantes, zero, fala, zero, uma inteligência incrível no mundo do sinal e do visual.

Não ignoro que o que a política designou por “orgulho surdo”. O orgulho bateu à porta de muita gente desprezada, ridicularizada, massacrada, que não esquece as mortes inspiradas pela ignorância e pela estupidez. O orgulho surdo tem a reação natural expressa no Black Power e no Black Lives Matter. Há uma forma de racismo ligado às pessoas diferentes que vem do início dos tempos. As pessoas que foram oprimidas, discriminadas, marginalizadas, a quem foi negado o direito de ser pessoas por pessoas sem caráter e sem dignidade, o orgulho é uma resposta e uma defesa. É uma resposta às pessoas medíocres e mal educadas que não têm olhos nem ouvidos para ver e ouvir o que não esteja apenas à volta do seu umbigo. Orgulho surdo é a força e determinação para tomarem conta da sua vida e do seu destino.

Autoria de:

Redação Diário As Beiras

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