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Opinião: O problema do lixo espacial à volta da Lua

10 de abril de 2025 às 11 h09

Já falei aqui do problema do lixo espacial que orbita a Terra, que aumenta exponencialmente, e do perigo que isso traz para toda as missões espaciais e toda a nossa presente dependência do bom funcionamento de milhares de satélites. Hoje falarei do problema do lixo espacial à volta da Lua. Em rigor, do problema com o lixo espacial entre a região dos satélites geoestacionários (a cerca de 36000 km de altitude) e a Lua, ao qual chamamos região cislunar. Sim, o o prefixo cis- representa “para cá da Lua” da mesma forma que os textos bíblicos falam de Cisjordânia e Transjordânia quando se referem ao “para cá” e ao “para lá” do rio Jordão.
Com o renascer das missões lunares, as atenções voltam-se também para o problema da colisão com um velho e abandonado foguete ou missão falhada, ou mesmo com qualquer fragmento de um revestimento térmico ou pequena peça. Qualquer colisão no espaço pode ser fatal. E enquanto que na Terra tudo o que sobe tem de descer (desde que não saia da órbita), fora dela o problema já é outro.
Se os chumbos de todos os tiros de espingarda alguma vez dados continuassem eternamente a viajar à volta da Terra sem nunca cair: já não haveria pombos. Porém, eles caem. A velocidade típica de um chumbo de tiro de caça é 400 metros por segundo. É mais rápido do que o som, mas não chega aos 8 quilómetros por segundo para poder ficar em órbita. E mesmo que saísse da espingarda com 8 km/s, o atrito da nossa atmosfera faria com que rapidamente perdesse velocidade, acabando por cair. Na verdade, os satélites que orbitam a Terra nas chamada órbitas baixas (do inglês: órbitas LEO), entre os 200 e os 2000 km de altitude, apesar da quase inexistência de atmosfera a essas altitudes, encontram sempre alguma resistência atmosférica (atrito) e lentamente vão caindo. A densidade média da nossa atmosfera ao nível do mar é de 1,225 miligramas por centímetro cúbico. A 200 km de altitude, para os nosso pulmões não há atmosfera nenhuma mas, em rigor, temos uma densidade atmosférica de 1 a 10 milhões de vezes mais baixa do que ao nível do mar, o que não é zero e é suficiente para lentamente perturbar os satélites. A estação espacial internacional (ISS), que orbita a Terra a cerca de 400 km de altitude, decai cerca de 2 km por mês e necessita de ligar os seus propulsores de 2 a 4 vezes por ano para corrigir a órbita e impedir que acabasse por reentrar na nossa atmosfera, desintegrando-se numa chuva de grandes estrelas cadentes. Mas o caso muda radicalmente de figura para a região cislunar. Aí, o que por lá fica é não só quase eterno como é extremamente difícil de prever onde irá estar exatamente no futuro para podermos planear missões espaciais que não se cruzem com nenhuma destas “verdadeiras balas”.
Na passada semana decorreu a 9º conferência europeia sobre lixo espacial, em Bona, Alemanha. Sendo a principal preocupação o lixo espacial em torno da Terra, começou-se a discutir muito seriamente a questão do lixo espacial cislunar. É, não só, necessário intensificar o estudo científico desse tema, como é, também, necessário definir regulamentação para que não tenhamos um sério problema dentro em breve. Basta nos lembramos de que o módulo lunar “Snoopy” da missão Apollo X, em 1969, que foi o derradeiro teste da capacidade de pousar na Lua (sem ter pousado) antes de a Humanidade efetivamente o fazer com a Apollo XI, ainda está lá em órbita com uma velocidade de cerca de 1,5 km/s — o que é mais rápido do que um tiro de uma M16 ou de uma Kalashnikov — e poderá assim continuar por muitas e muitas décadas.

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