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Da Lagenaria à Curcubita

10 de outubro de 2026 às 11 h30

Duas palavras que, para alguns leitores, podem parecer grego mas que são, de facto, palavras latinas que denominam dois géneros botânicos de frutos conhecidos em Portugal por abóboras.

Mogango, buganga, porqueira, de água, menina, jerimum, frade, gila, chila, hokkaido e butternut são algumas das denominações e variações que estes frutos têm pelo território nacional. Sim, são, botanicamente falando, frutos.

À nossa mesa a grande maioria chega transformada em sopas, doces ou, já mais recorrente, em pedaços assados no forno acompanhando pratos salgados. Esta aparente falta de versatilidade culinária da abóbora é só aparente, pois o seu uso como ingrediente está já documentado em um dos mais antigos registos culinários do mundo mediterrânico, o denominado “Livro de Cozinha de Apício”, uma colectânea de receitas romanas datáveis entre os séculos I e V depois de Cristo. Uma das propostas mais criativas deste receituário que tem por base a abóbora é a receita de “Abóbora à moda de Alexandria”, que mistura frutos secos, tâmaras, especiarias, hortelã fresca, mel e vinagre a abóbora previamente cozida. Uma espécie de salada, diríamos nos dias de hoje.

Durante o período medieval veremos estes frutos integrados em estufados de carne ou então cozinhados com ovos, nomeadamente nas refeições em que se exigia abstinência de carne aos praticantes do Cristianismo.

No entanto, a história destes frutos é mais intrincada. E, para isso, temos de voltar aos nomes latinos.

Até ao século XVI, nos continentes europeu, africano e asiático, a abóbora que conhecemos era totalmente desconhecida. O fruto de polpa laranja e adocicada, cascas de diversas cores e texturas e de dimensões e formas variadas é, na verdade, nativo do continente americano, pertencente ao género Curcubita e, tanto quanto podemos saber, chega ao Velho Mundo no início do período moderno trazida daquelas paragens logo nas primeiras viagens que ligaram os dois lados do Atlântico. Não muito tempo depois, o mesmo aconteceria no continente africano.

Contrariamente ao tomate ou à batata, também de origem americana, que por serem bastante diferentes dos legumes e frutos conhecidos na Europa demorariam mais de um século a ser adotados na culinária europeia, a abóbora do género Curcubita rapidamente se integrou nos hábitos alimentares locais.

Esta facilidade com que um produto de um novo continente passava a ser consumido sem medos ou receios deve-se, em particular, à existência deste lado do Atlântico de um fruto muito semelhante na forma e aspecto mas com uma origem botânica distinta. A “abóbora” que Apício usaria para fazer a sua iguaria à moda de Alexandria seria um fruto do género Lagenaria, nativo do continente africano, de polpa branca, com uma casca mais rija a que hoje chamamos de “cabaça”, commumente plantada para secar e ser usada como decoração ou, mais raramente, para fazer cantis para água.

Sendo os frutos de origem americana, as Curcubita, bastante mais carnudos e de acentuado sabor doce, facilmente se percebe as razões que terão levado à sua rápida integração nas cozinhas europeias, substituindo as milenares Lagenaria africanas já apreciadas pelos romanos.

À sua chegada à Europa estes frutos americanos encontrariam um outro estrangeiro que começava a fazer furor nas cozinhas portuguesas, o açúcar, vindo da Ásia e, à data, produzido na Madeira, Cabo Verde e Brasil. Deste encontro conhecemos bem o doce desfecho que teve e que, no mês que esta semana inauguramos, muitos de nós ainda celebramos na cozinha ao nos dedicarmos à produção de doces de abóbora. Estamos no tempo delas, é de aproveitar, que em pouco tempo teremos outro fruto à porta a exigir a nossa total atenção e dedicação culinária, o marmelo.

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