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Turismo ou Habitação: não é uma questão de escolha.

07 de novembro de 2026 às 10 h15

“Revirei a casa, não encontrei ideologia. Para a discussão da habitação a ideologia de nada serve. Apenas a vontade de resolver a vida das pessoas.”
Como se não bastasse o tema arriscado e o título algo enigmático do artigo de hoje, ainda abro o mesmo com uma citação de… Isaltino Morais, esse, agora, paladino do bom senso, guru digital e comentador encartado das nossas televisões. Ironizo, mas faço-o porque encontro nesta citação uma abordagem interessante ao tema, pragmática e consensual quanto baste. Já é um começo.

Na verdade, há ideologia e tática político-partidária a mais na discussão da crise da habitação em Portugal e isso significa atrasar a busca de soluções, ou melhor, de caminhos conducentes às melhores soluções possíveis. Porque este tema, comum a muitas outras geografias mundiais e que afeta muito diretamente as pessoas, nomeadamente os jovens em início de vida profissional e de constituição de família, é muito complexo, dadas as situações dicotómicas que apresenta, “dois lados da barricada” perfeitamente definidos, antagónicos. Por isso, é necessário aproximação, consenso, regulação sem coartar liberdades individuais e fiscalização assertiva sobre atividades potencialmente ilícitas e especulativas.

Não tenho a veleidade de trazer aqui qualquer solução, acho que ninguém tem essa fórmula, basta ver e ouvir as centenas de opiniões que nos chegam todos os dias, sem resultados que tragam esperança a quem a procura. Acresce que, nesta coluna de opinião, apenas cabe a relação deste tema com o turismo, pois esta área de atividade está, claramente, implicada neste assunto. E como? São os contributos, breves, que aqui quero deixar para a reflexão e discussão.

O turismo é frequentemente apontado como uma das atividades responsáveis pela crise da habitação. Não é a principal causa desta crise, na minha perspetiva, mas há razões para preocupação. Nos territórios do litoral mais desenvolvidos e sujeitos a maior pressão turística e imobiliária, o alojamento destinado a visitantes pode reduzir a oferta para residentes e contribuir para a valorização excessiva das casas. Além disso, a concentração turística pode transformar bairros, afastando população e comprometendo o equilíbrio entre quem vive e quem visita.

Mas o turismo também pode ser parte da solução. A procura turística tornou viável a recuperação de muitos edifícios degradados, devolvendo valor ao património e dinamizando comércio, serviços, emprego e investimento. E aquilo que constitui pressão no litoral pode representar oportunidade no interior, onde existe menor procura imobiliária, despovoamento e património devoluto. Aí, o turismo também pode recuperar imóveis, gerar rendimento e ajudar a fixar população. Tenho trazido aqui com frequência as minhas preocupações e perplexidades com a forma como o interior do nosso país é, sucessivamente, tratado.

Ora, a crise da habitação nas regiões mais pressionadas pode ser uma oportunidade para levar ali, ao interior, novos residentes. E novos turistas também.
Desta forma, acredito que não precisamos de escolher entre turismo e habitação. Precisamos, sim, de regular onde há excesso, incentivar investimento onde o mesmo falta e garantir mais habitação, melhor turismo e melhores políticas públicas. Voltando ao amigo Isaltino, menos ideologia, mais consenso, mais ação. Mais e melhor atenção às pessoas.

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