Contra a “iliteracia lúdica e motora”: libertem-se os corpos!
Por ocasião da realização do 14º Congresso da APECATE – Associação Portuguesa de Empresas de Congressos, Animação Turística e Eventos, realizado em Monte Real, Leiria, nos passados dias 1 e 2 de outubro, sob o interessante lema “O desafio somos nós”, tive a oportunidade de assistir ao vivo a uma conferência do Professor Carlos Neto, Catedrático da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa, especialista frequentemente convidado para intervenções nos meios de comunicação social sobre o papel do brincar e do jogo no desenvolvimento das crianças, mas também dos jovens, e das consequências ao nível da destreza motora que o saber brincar e o saber jogar podem ter no futuro dos próprios e das sociedades em geral.
Trago aqui este tema para, precisamente, o relacionar com a atividade turística, afinal, também esta a razão pela qual a APECATE convidou o Professor Carlos Neto para uma intervenção logo no primeiro painel dos trabalhos, este com o título “Segurança, o mito que nos condiciona”. Antes deste momento não me tinha ocorrido esta relação tão direta e de como a mesma faz todo o sentido, nomeadamente como forma de contrariar as consequências negativas do que é hoje a cultura do sedentarismo, do protecionismo exacerbado de pais sobre filhos, do medo de arriscar em novas atividades físicas e na fruição autónoma do espaço público para além da nossa área de conforto, da assustadora dependência dos dispositivos digitais, todos “sem fios”, mas que já nos agarraram a todos – sim, os adultos já não escapam também a esta doença civilizacional, não podemos pedir às crianças e aos jovens que levantem os olhos dos ecrãs se nós próprios não o fizermos. Assim, num tempo em que os mais novos parecem ter o mundo inteiro na palma da mão… talvez a melhor estratégia seja ajudá-los a descobri-lo… pelos próprios pés.
É neste contexto que vejo no turismo uma oportunidade educativa extraordinária e que está ao alcance das famílias, tornando os progenitores, ou outros familiares, nos principais agentes e guias turísticos dos seus filhos e educandos. Um simples piquenique fora da nossa área de residência (nossa zona de conforto), uma caminhada junto ao mar ou no campo, um passeio de bicicleta, uma tarde numa praia fluvial com valentes braçadas ou pagaiadas, a descoberta das aldeias mais típicas da nossa região e país, ou mesmo calcorrear museus e exposições, são muito mais do que meras atividades de lazer, são educação, cultura e movimento físico ativo, com a intensidade que quisermos e pudermos dar-lhe. Está ao nosso alcance e no nosso controlo, basta darmos o passo em frente e resistir à tentação da inércia, que tanto mal faz à nossa saúde e à saúde dos que nos rodeiam.
Recorrendo ao título do artigo de hoje, pode ser esta uma boa estratégia para combater a “iliteracia lúdica e motora”, expressão da autoria do Professor Carlos Neto, de que padece a maioria das nossas crianças e jovens, e se calhar hoje muitos dos adultos também, porque estes, no seu crescimento, foram já socializados num ambiente de cultura sedentária e no aprisionamento físico e mental que os dispositivos digitais representam. Por isso, libertemo-nos.
