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Opinião: Literacia e cultura digitais

13 de janeiro de 2025 às 11 h24
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A literacia e a cultura digitais, ainda que interligadas, não significam exatamente a mesma coisa. Com efeito, o conhecimento profundo das ferramentas e aplicações da tecnologia da informação e comunicação não implica necessariamente o florescimento de uma cultura digital.

A literacia digital abarca o estágio do conhecimento eminentemente técnico das tecnologias digitais, mas não impacta necessariamente no ethos, ou seja, no conjunto de traços e modos de comportamento que conformam o caracter ou identidade de uma coletividade, ou seja, a cultura está associada ao ethos hábito e ao ethos digital.

Em termos antropológicos, o termo exprime uma espécie de síntese dos costumes de um povo. Evidencia ainda os tópicos característicos de um grupo humano que o diferenciam de outros grupos sob o ponto de vista social e humano. Trata-se consequentemente da entidade social de um grupo. O que significa que a cultura promove a sua própria ordenação, ao estabelecer normas e regras de conduta que devem ser observadas por todos os seus membros. A tecnologia digital impacta, cresce e desenvolve-se dentro de uma cultura, e qualquer sociedade é constrangida pelas suas técnicas digitais. Neste contexto, a cultura digital e a literacia digital fertilizam-se.

A cultura é todo o complexo que inclui conhecimento, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábito adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade. A cultura é assim transmitida pela socialização na formação do sujeito, e é reinterpretada quando exteriorizada por esse mesmo sujeito socializado.

Toma-se, deste modo, a cultura como hábitos adquiridos, o que significa ações individuais repetidas, e, quando se tem um conjunto de sujeitos com hábitos definidos, infere-se que existe nesse grupo um costume, ou um conjunto de comportamentos relativamente renovado e compartilhado por todos, num determinado ambiente. É nesta envolvente que surge e se expande a cultura digital.

Efetivamente, a cultura é produzida “através da interação social dos indivíduos, que edificam os seus modos de pensar e sentir, constroem os seus valores, manipulam as suas identidades e diferenças e estabelecem as suas rotinas”. Adicionalmente, o conceito de cultura ampliado está associado à invenção coletiva de símbolos, valores e ideias e comportamentos, e pode sugerir-se deste modo que todos os indivíduos e grupos são seres e sujeitos culturais. Neste enquadramento, o digital é definido como a representação de base eletrónica da informação, com recurso a computadores e a redes. Com a junção dos conceitos – cultura + digital – surge a inter-relação entre a literacia digital e a cultura digital, dando origem a uma nova ecologia social. Este é um conceito filosófico, social e político que associa as questões ecológicas com as sociais, ao estudar as relações entre pessoas e o seu ambiente numa simbiose de interdependências coletivas e institucionais.

A cultura digital é analisada por Castells “com uma habilidade para comunicar ou mesclar qualquer produto baseado em linguagem comum digital e pela constituição gradual da mente coletiva pelo trabalho em rede, mediante um conjunto de cérebros sem qualquer limite, ou seja, conexões entre cérebros em rede e a mente coletiva”.

Autoria de:

Marques de Almeida

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