Opinião: Guerra e Paz
Pela primeira vez, desde o fim da 2ª Guerra Mundial, reapareceu na Europa uma guerra fratricida com o perigo real de envolver todo o continente europeu, mas desta vez com a possibilidade de aniquilação mútua através do uso de armas nucleares. Perante um tal desatino, qualquer pessoa com o mínimo de sensatez só pode exigir o cessar-fogo imediato e o restabelecimento da paz. Não tem faltado quem, na própria Rússia e correndo graves riscos, tenha vindo defender o cessar-fogo. Entre estes, o arcebispo Pavel Pezzi, Presidente da Conferência Episcopal Católica da Rússia, de forma corajosa citava recentemente as palavras do Papa na encíclica Fratelli Tutti: “Qualquer guerra torna o nosso mundo pior do que era antes. A guerra é um colapso da política, um colapso da humanidade, uma vergonhosa rendição, uma derrota esmagadora para as forças do mal. Deixemo-nos de discursos teóricos para ver e tocar a carne ferida das vítimas de guerra! Ouçamos as histórias verdadeiras das inúmeras vítimas da violência, vejamos a realidade através dos seus olhos, e ouçamos de todo o coração o que eles nos dizem!”
Ora, conforme lembra o Catecismo da Igreja Católica: «A paz não é só ausência de guerra, nem se limita a assegurar o equilíbrio das forças adversas. A paz não é possível na terra sem a salvaguarda dos bens das pessoas, a livre comunicação entre os seres humanos, o respeito pela dignidade das pessoas e dos povos e a prática assídua da fraternidade. Ela é “tranquilidade da ordem”; é “obra da justiça” e efeito da caridade.» Este documento prossegue com uma análise de vários pontos subsidiários que, também nesta guerra, se levantam: o conceito de “legítima defesa pela força das armas“, a validade permanente da lei moral durante os conflitos armados, as reservas morais relativamente à acumulação de armas, à corrida aos armamentos e ao fabrico e comércio de armas. O Papa tem referido todos estes aspetos nas suas intervenções recentes.
O critério primordial para a paz duradoura (que não é a mera ausência de guerra) decorre assim do respeito pleno pela dignidade humana (neste caso começando por atender às diferentes comunidades que habitam a região do Donbass). É esse mesmo padrão que permite aferir quando é que a violação dessa dignidade é suficientemente forte para justificar o paradoxo da utilização de armas para a defender. A linha trágica que delimita esta fronteira entre soluções pacíficas e o recurso às armas não é fácil de definir, mas é inegável que a fronteira existe, conforme testemunham os horrores da 2ª Guerra Mundial.
É difícil descortinar como é que um tal critério pode servir para legitimar uma investida tão desproporcionada como aquela desencadeada pelo autocrata do Kremlin. Esta agressão à Ucrânia e ao próprio povo russo (cuja juventude é enviada para a morte) melhor se enquadra numa completa desconsideração pela dignidade humana, dentro e fora de fronteiras.
A todos, a começar por cada um de nós, é exigido que não poupem esforços para assegurar a paz. Não uma paz qualquer, mas sim aquela que está firmemente assente nos direitos humanos, na dignidade humana, na justiça, na liberdade, na autodeterminação dos povos. Não é adequada a “paz” dos homens que dormem “a embalar a dor dos silêncios vis”, na invetiva de José Gomes Ferreira. No seu célebre “Acordai”, o poeta profetiza: “E acordai depois/Das lutas finais/Os nossos heróis/Que dormem nos covais.” É nos covais da Ucrânia que os nossos heróis hoje dormem.

