Opinião: Fomos a votos
Precisamente há um ano deixei nas páginas do Diário As Beiras um texto que titulei “Vamos a Votos”. Entretanto fomos, voltamos a ir e cá estamos a pensar que mais valeria os políticos estarem quietos do que, de tanto votar, acabarem por pôr em risco a democrática vida dos cidadãos.
Luís Montenegro, com o assentimento do senhor Presidente da República, percebeu que uma corrida a novas eleições lhe seria favorável, apresentou uma moção de confiança e os outros partidos, pavlovianamente, morderam o isco e fizeram-lhe a vontade. Agora estamos assim, entalados de novo entre pequenas maiorias que se perfilam para novas eleições. Só que tal não será possível… e assim ficaremos durante mais de doze meses até que constitucionalmente seja possível abrir de novo as urnas.
Os resultados eleitorais, com a oportunamente avisada derrota do PS e de toda a esquerda, desenham um novo mapa político de Portugal, seguindo a “moda” internacional que paulatinamente vem levando a extrema-direita a assumir responsabilidades que há alguns anos seriam inimagináveis. O que tal representará para os cidadãos é coisa que só o tempo irá ajudar a perceber. Certo é que a viragem à direita trará significativas alterações às nossas vidas.
Assim sendo, vamos olhar para outro lado. Por exemplo, para a estima e o reconhecimento que muitos têm pela professora ou pelo professor que lhes ensinou as primeiras letras. Recordo com muito afeto a minha professora primária, Dª Cremilde, que à minha e a muitas gerações ensinou a crescer com valores, com princípios, com solidariedade. Tão grande era (e é) a nossa Amizade que enquanto foi viva mantivemos o costume de com ela passar um dia por ano. E a câmara municipal da Póvoa de Varzim, em reconhecimento do seu trabalho em prol da Educação no concelho, outorgou-lhe a medalha de ouro da cidade.
Mas, felizmente, eu não sou espécie única. A população de Tapéus, aqui bem perto, no concelho de Soure, não esqueceu a senhora professora que durante muitos de anos lhe ensinou os rudimentos da leitura e da escrita e as primeiras operações de aritmética. A Dª Clarisse Branquinho foi digna do “reconhecimento pela dedicação e entrega ao serviço da Escola Primária de Tapéus entre 1964 e 1975”.
Porque trago aqui estes dois exemplos? Porque, ao votarmos, estamos naturalmente a manifestar confiança nos que julgamos serem os mais capazes de nos ajudarem a viver melhor, com mais otimismo e com melhor futuro, tal como confiamos os nossos filhos e netos a uma plêiade de mulheres e de homens que fizeram das suas vidas um permanente estar ao serviço dos outros.
As campanhas eleitorais também podiam (e deviam?) falar deste reconhecimento de populações inteiras que não esquecem quem as ajuda a crescer e a prepararem-se para a vida.
Tive oportunidade há um mês de chamar a atenção para o facto de pouco ou nada ouvirmos sobre Educação no que foi a corrida para as urnas.
O meu vizinho do lado, o José Afonso Batista não tem feito outra coisa. Mas o mais curioso é que da Educação se escreve em vários programas dos partidos, com mais ou menos pormenor; todavia, para quem não ler os textos resta a ideia de que nenhuma luz iluminou os nossos políticos que postergaram a Educação para o fim dos fins. Não dá votos? E afinal, como atrás se viu, os povos interessam-se mais pelo tema e pela sua concretização do que seria de imaginar.
Com um novo governo saído das eleições veremos como será. Ao que parece seria vontade do Dr. Montenegro manter no essencial a equipa ministerial que o acompanhou nos últimos meses. A ser assim, pode ser que o Dr. Fernando Alexandre tenha finalmente tempo para indagar quantos alunos ficaram sem professores e em que disciplinas. Presumo que seja uma dificuldade na operação das somas, com o bom remédio de apostarem num professor primário (agora professor do 1º ciclo) para umas lições necessárias e úteis.
Mas permito-me desconfiar que, a manter-se o titular da pasta, não haja melhorias substanciais no setor. Oxalá eu me engane e venha aí uma boa surpresa.
Para finalizar: querem mesmo saber o que sinto neste pós eleições? Estou triste e desiludido com os resultados, mas sobretudo preocupado com o que o futuro nos pode trazer. Tal como o que escrevi no fim do parágrafo anterior: oxalá eu me engane.
