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Opinião: Ética digital e informacional

19 de maio de 2025 às 12 h52
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A ciência da informação aparece como um campo interdisciplinar preocupado com a análise, coleta, classificação, manipulação, armazenamento, recuperação e disseminação da informação registada, o que significa que esta disciplina recente estuda a informação desde a fonte até o processo de transformação dos dados em informação, conhecimento e sabedoria. Pode ser dividida em diferentes correntes teóricas, que estudam em, termos puros, os temas e assuntos conectados com o fenómeno info-comunicacional, mas também como ciência aplicada, com habilidade e capacidade para desenvolver serviços e aplicações.

O resultado deste enlace teórico-prático constitui um campo de inegável reflexão ética. A informação é hoje o ativo estratégico mais em foco nas empresas e instituições.

A ética digital é um fator essencial para as empresas e transcende a simples criação de regras. É o elemento relevante subjacente às transações virtuais, que impõe uma análise comparativa do comportamento entre os indivíduos e as tecnologias digitais, que impacta no entendimento que os cidadãos possuem de si e das suas interações com outros sujeitos e o ambiente. Efetivamente, a sociedade de informação organiza-se a partir das interações sociais, essencialmente mediada por tecnologias digitais. Esta interferência cria uma relação de dependência entre os indivíduos e as tecnologias digitais, emergindo a impossibilidade de se viver numa sociedade urbana sem utilizar qualquer tipo de instrumento digital, em todas as expressões básicas de vida humana. Efetivamente, o entretimento, o trabalho, a educação, as relações internas, as atividades físicas, entre outras, tornam-se ações digitalmente influenciadas. Na era analógica, as ações eram realizadas sem a necessidade de intervenção tecnológica, hoje, desempenhadas digitalmente, evidenciam um crescimento exponencial de utilizadores. Neste espírito, sem aplicativos digitais não é possível interagir em sociedade, o que impõe a análise da imersão do indivíduo no ambiente online. A partir daqui a digitalização da vida humana e as inerentes tecnologias de teor pervasivo e ubíquo, passam a ser uma extensão da vida humana, fomentando um crescente grau de aprofundamento e reciprocidade tecnológica, na qual os emojis são imagens digitais utilizados para expressar uma ideia ou emoções, que refletem costumes, humores ou preocupações diárias. Em suma, viver na sociedade informacional urbana e sobreviver a partir de tecnologias digitais provoca problemas associados à privacidade informacional, à arrogância epistémica e à divisão digital.

A privacidade informacional ou proteção de dados, no contexto da sociedade da informação, está relacionado ao facto de a quebra de intimidade, da subjetividade e da autonomia, dilaceram o estado ou a condição de preservação do mundo particular do indivíduo, sujeito agora ao acesso de terceiros. Ora, a privacidade é um problema de cunho ético. A proteção de dados pessoais tornou-se uma preocupação presente na era digital. Por isso, a ética empresarial é fundamental na construção de uma opinião estruturada. Neste sentido, o compliance atua como pilar dessa ética, diferindo e garantindo a adesão a padrões e regulamentos éticos no ambiente de negócio. Efetivamente, o cumprimento das normas éticas demonstra um compromisso com a integridade e valores morais, fortalecendo a autoridade desempenhada.

Por sua vez, a epistemologia social preconiza que o processo de formação, a justificação e a dinâmica das crenças dos indivíduos, seja enquadrado no seu ambiente social, atendendo a que a situação epistémica humana é profundamente modelizada pelas relações e instituições em que se encontram inseridos. De facto, muito do nosso conhecimento é baseada na confiança. Esta é igualmente mediada pelas tecnologias digitais, quando se utilizam as redes sociais para expressar e justificar as crenças individuais.

Acresce que, os indivíduos extremamente digitalizados sofrem da chamada arrogância epistémica cognitiva. Esta faceta peculiar, evidencia a ausência de limites relativamente ao que se pensa conhecer, acreditando que quanto mais informação receberem maior é o grau de conhecimento e, como resultado, intensificam exageradamente o nível de confiança. Trata-se de um problema típico da sociedade de informação que disponibiliza o uso massivo de tecnologias digitais para a criação de crenças pessoais, que podem ser manipuladas seletivamente por algoritmos. O caso Facebook cambridge analytica é um exemplo bastante elucidativo. Como os utilizadores, atualmente, constroem uma visão do mundo graças a informações obtidas pelas tecnologias digitais, aquelas podem ser manipuladas e controlados por algoritmos concebidos e desenhados por especialistas ao serviço dos interesses das empresas com as quais colaboram. O que comporta evidentemente problemas éticos, relativos à vida particular dos indivíduos, alavancados pela falta de privacidade e transparência do funcionamento dos algoritmos.

Tudo isto, acaba por fomentar a chamada divisão digital, que refere a lacuna existente no mundo entre as pessoas que têm acesso às tecnologias digitais e as que não têm, com a agravante de a parcela mais pobre da população integrar a maior parte dos excluídos da sociedade da informação. Esta divisão digital é sistêmica, e está presente em todo o ciclo de vida das tecnologias digitais. Os indivíduos integrados no lado excluído da divisão digital são caracterizados por não terem acesso significativo às tecnologias digitais, e, deste modo, acabam não obter vantagem cultural e económica a partir da sua utilização, o que restringe, de forma relevante, a sua cidadania digital. Situação que se considera constrangedora e ao mesmo tempo central em termos de ética e democracia digital.

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