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Opinião: Entre o verde provável e o futuro possível

07 de fevereiro de 2026 às 12 h55
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Nas cidades portuguesas, falar de sustentabilidade urbana tornou-se quase obrigatório. Fala-se de árvores, parques, corredores verdes, fachadas ajardinadas e soluções “baseadas na natureza”. Ao mesmo tempo, fala-se de falta de habitação, de reabilitação urbana, de densificação e de crescimento. À primeira vista, a questão parece simples: como tornar as cidades mais compactas e, ao mesmo tempo, com mais natureza? Mas o verdadeiro problema não é técnico. Não é saber se conseguimos plantar mais árvores ou desenhar bairros mais eficientes. A questão central é outra: que tipo de futuro urbano consideramos credível.
Hoje, muitas políticas urbanas seguem uma lógica clara: melhorar a cidade sem alterar os seus fundamentos. Introduz-se mais verde, mais eficiência energética e mais soluções técnicas, mas mantém-se intacta a forma dominante de produzir cidade – orientada pelo mercado, pela valorização imobiliária e por indicadores económicos. Estas estratégias produzem aquilo a que podemos chamar “futuros prováveis”. São compatíveis com os modelos financeiros, com os regulamentos existentes e com as expectativas do mercado. São politicamente confortáveis e tecnicamente apresentáveis.
O problema é que, na maioria dos casos, resultam em transformações superficiais. Não estamos perante uma crise de imaginação. Conseguimos imaginar cidades cobertas de vegetação, edifícios verdes e espaços públicos partilhados por pessoas e outras espécies. O que parece difícil não é imaginar. É acreditar que uma cidade verdadeiramente diferente possa existir sem pôr em causa as regras que hoje organizam a economia urbana.
O que continua a ser socialmente considerado plausível é uma cidade verde, desde que continue a funcionar como mercado. Por isso, grande parte das políticas ambientais transforma a natureza num instrumento. As árvores servem para arrefecer o espaço público, os jardins para reter água, as zonas verdes para valorizar territórios. Quando o verde urbano passa a ser tratado como ativo económico, tende a reforçar desigualdades. É aqui que surge um ponto decisivo: muitos dos futuros verdes hoje considerados prováveis são, na prática, socialmente injustos.
Há, contudo, um problema ainda mais profundo. Ao reduzir a natureza a um conjunto de serviços, continuamos a reproduzir a velha separação entre cidade e mundo natural. A cidade permanece o espaço dos humanos; o verde surge como algo que se acrescenta, se gere e se controla. Talvez seja preciso inverter esta lógica: deixar de pensar o verde como um complemento e passar a pensar a própria cidade como um ecossistema vivo, uma teia da vida, feita de relações entre humanos e não humanos. Isso obriga também a repensar o que entendemos por densidade. Uma cidade densa não é apenas aquela onde vivem muitas pessoas por quilómetro quadrado. É uma cidade onde se cruzam intensamente pessoas, plantas, animais, microrganismos, água, solos e infraestruturas. A densidade deixa de ser apenas demográfica e passa a ser relacional. Em causa está uma mudança profunda na forma como pensamos a cidade e o nosso lugar nela. Tornar credível outro futuro urbano exige reconhecer outras formas de produzir conhecimento sobre a cidade. E exige, sobretudo, colocar a justiça social no centro da transição urbana. Entre o futuro provável — mais verde, mais eficiente, mas igualmente desigual — e o futuro impossível, existe um espaço decisivo: o do possível plausível. É nesse espaço que as cidades portuguesas precisam, hoje, de aprender a agir.
Com a colaboração de Diogo Guedes Vidal e de Rosário Rosa, Sociólog@s e docentes Universitári@s

Autoria de:

Fátima Alves

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