Opinião: Entre a apologia da ignorância, as fake news e a insegurança
Vivemos tempos vertiginosos. A cada imagem que nos atravessa o olhar, a cada manchete que nos sacode, a cada gesto político que revela mais uma camada de podridão institucionalizada, somos confrontados com as contradições do nosso tempo – dando-nos socos contínuos num estômago vazio, seco de esperança. Um tempo onde a promessa de desenvolvimento continua refém do crescimento económico, um eco gasto de um modelo que já não se sustenta ou que, para subsistir, precisa agora reinventar-se no absurdo. Veja-se o caso da Coca-Cola, símbolo global do capitalismo triunfante, a anunciar que vai alterar a fórmula sob condições anedóticas e politicamente oportunistas. Uma imagem patética, mas poderosa de um sistema que prospera com a destruição da saúde e da dignidade. A fórmula da Coca-Cola torna-se, aqui, uma metáfora clara da decadência do sistema. Não é sátira.
Enquanto isso a destruição ecológica acelera mesmo quando já não se trata de futuro, mas de presente. As instituições ruem ou rendem-se à lógica do lucro e da extorsão. Portugal não escapa a esta lógica perversa. A governação do país, fraca, sem vergonha, atrevida, aposta no empobrecimento e na pobreza como estratégia. O elogio da escassez disfarçado de austeridade moral. A precariedade transformada em destino. O debate democrático e a negociação política são substituídos pelo espetáculo. A ética pelos gritos e manipulação.
E aqui entra a apologia da ignorância, um instrumento de controlo tão antigo quanto eficaz. O esvaziamento deliberado da educação crítica, a desvalorização da ciência, a criminalização das ciências sociais e a demonização da diversidade tornaram-se práticas correntes de governos e movimentos populistas. É a moda política do momento esta de reverter conquistas civilizacionais, reduzindo cidadãos a massas dóceis, incapazes de questionar o poder.
O medo é o novo cimento da ordem autoritária. Alimenta-se de fake news, de teorias da conspiração, de discursos incendiários que apontam o dedo aos mais frágeis e instigam ao ódio. Mas os factos, esses, desmentem esse medo fabricado, que quando repetido se torna estratégia de governação. Somos espectadores impotentes de um novo ciclo de impunidade internacional? Gaza é disso prova. Um ultraje à humanidade que se repete sob o silêncio cúmplice das instituições e o fechar de olhos dos regimes.
E é neste cenário de desagregação ética que alguns propõem reverter direitos conquistados com suor, luta e lágrimas. Direitos humanos, laborais, de género, reprodutivos, identitários, tudo é posto em causa como se fossem privilégios excessivos de minorias barulhentas.
Mas o mais escandaloso é que estes mesmos populistas, que se apresentam como salvadores, são, muitas vezes, os violadores mais cruéis da normatividade social e democrática. Agressivos para com as mulheres, as crianças, as minorias, os ambientalistas, são também os primeiros a corroer as conquistas democráticas que tantos lutaram por alcançar. Inverteram os valores. Quem transgride a democracia é celebrado como herói. Quem a defende é tratado como inimigo do povo.
Talvez estejamos mesmo a assistir ao último grito do modelo vigente. Mas a pergunta permanece: o que vem depois? Que sociedade queremos construir? Que vidas desejamos viver? Se o modelo atual só sobrevive com violência, desigualdade e mentira, então que não seja ele o nosso horizonte e que sejamos capazes da utopia.
