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Opinião: As Missões Voyager mensagem na garrafa

04 de julho às 10h25
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As missões Voyager da NASA são provavelmente as mais emblemáticas da exploração espacial. Pensadas no início da década de 1970, estas naves gémeas foram concebidas “para audaciosamente ir onde nenhuma sonda jamais esteve”. A ideia nasceu quando Gary Flandro, um engenheiro aerospacial da NASA se apercebeu que se aproximava uma rara conjunção dos planetas gigantes, algo que ocorre a cada 176 anos e que permite visitar Júpiter, Saturno, Urano e Neptuno em tempo recorde. Flandro viu neste alinhamento uma excelente oportunidade para uma missão ambiciosa a que chamou “Planetary Grand Tour”. Carl Sagan, autor da famosa série televisiva Cosmos, está intimamente ligado às missões Voyager. Sagan fez tudo para que as Voyager, para além de exploração científica, fossem uma espécie de símbolo da humanidade. A Voyager 2 foi lançada a 20 de Agosto de 1977, seguida da Voyager 1 que partiu a 5 de Setembro. Coincidência ou não, o primeiro filme da famosa saga “Star Wars” estreou a 25 de Maio do mesmo ano.

O principal objectivo das Voyager era estudar de perto os planetas gigantes e as suas luas. A Voyager 1 concentrou-se em Júpiter, Saturno e a sua lua Titã, enquanto a Voyager 2 seguiu para Úrano e Neptuno. Atingidos os objectivos, as sondas seguiram caminho, afastando-se cada vez mais do Sol. A Voyager 1, que saiu oficialmente do sistema solar em 2010, detém o recorde do objeto feito na Terra que foi mais longe: são mais de 22 mil milhões de km de distância.

A Voyager 2 está a cerca de 19 mil milhões de quilómetros. As sondas viajam em direcções diferentes: imaginando o sistema solar como o tampo de uma mesa, a Voyager 1 saiu disparada em direcção ao tecto e a Voyager 2 segue em direcção ao chão.

A bordo de cada Voyager encontra-se um “Golden Record”, um disco de cobre banhado a ouro de 12 polegadas que contém sons e imagens que retratam a diversidade biológica e cultural da Terra. Esta “mensagem na garrafa” interestelar inclui saudações em 55 línguas, música de várias culturas e épocas, sons naturais do nosso planeta, e instrucções de como nos vir visitar. O “Golden Record” é uma espécie cápsula do tempo destinada a qualquer ser extraterrestre inteligente que a venha a encontrar.

Apesar das suas já longas viagens, as Voyager continuam a comunicar com a Terra, embora o sinal demore mais de 21 horas a chegar até nós. O último contacto com a Voyager 1 aconteceu no passado dia 13 de Junho. Está previsto que em meados da próxima década venhamos a perder contacto com as Voyager, que estarão demasiado longe para o alcance das suas antenas.

A odisseia das Voyager é verdadeiramente espantosa. Estas pequenas emissárias podem ser vistas como símbolo da nossa vaidade e incessante necessidade de comunicar. Mas eu prefiro vê-las como símbolo da generosidade e curiosidade humanas, transportando uma amostra do nosso planeta e em direcção ao vasto desconhecido na expectativa de um dia receber uma mensagem de volta.

Autoria de:

Pedro Lacarda

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