Opinião: As eleições e os programas eleitorais de saúde
Ah, as eleições! Aquele momento mágico em que os partidos políticos se transformam em verdadeiros ilusionistas, tirando da cartola promessas mirabolantes para o Serviço Nacional de Saúde (SNS). É como um festival de música, onde todos tocam a mesma canção: “Defendemos o SNS!” Mas, curiosamente, ninguém parece saber a letra completa.
O PS é perito em prometer na saúde. Prometeu médicos de família para todos — continuamos à espera. Prometeu resolver as listas de espera — resolveram-se sozinhas porque os doentes desistiram ou foram para o privado. Prometeu investir como nunca — mas o investimento parece ter ficado todo nos gabinetes de comunicação e nas inaugurações de centros de saúde sem pessoal. O PS defende o SNS como quem defende uma casa abandonada: orgulhoso das paredes, mas com o telhado a cair. Fala de “investimento histórico” ao mesmo tempo que urgências fecham ao fim de semana, maternidades encerram no verão e profissionais fogem para o estrangeiro porque lá, ao menos, os respeitam e pagam-lhes decentemente. Talvez seja esse o verdadeiro desígnio socialista: não governar a saúde — mas sim eternamente prometer governá-la.
E depois temos a esquerda clássica — BE e PCP — que continua apaixonada por um SNS de manual, como se vivêssemos em 1975. Para eles, o problema nunca é do sistema — é sempre do governo, das políticas neoliberais, da direita malvada, das privatizações fantasma. A resposta é sempre a mesma: mais Estado, mais funcionários, mais público, mesmo que não haja profissionais disponíveis, mesmo que o sistema esteja a cair aos pedaços. É como insistir em usar um telefone fixo em plena era dos smartphones.
O Livre, por sua vez, apresenta o SNS ideal: verde, justo, inclusivo, ecológico, com igualdade de género e bicicletas à porta dos hospitais. Uma visão bonita. Poética. Utópica. O problema é que os doentes, em vez de um menu vegetariano na cantina, querem mesmo é um médico disponível. De preferência ainda este ano.
E o PAN não desilude: quer um SNS amigo do ambiente, menus saudáveis, hospitais sustentáveis, aromaterapia talvez, meditação na sala de espera, e uma política de bem-estar animal aplicada aos seres humanos. Fica a dúvida se, num hospital gerido pelo PAN, tratam primeiro o doente ou o cão de serviço.
O PSD, desta vez, tenta ser o partido da responsabilidade. Reconhece que o SNS está doente, que precisa de reformas, mas isso não basta. O PSD parece aquele aluno que sabe exatamente o que tem de fazer num exame — mas fica tanto tempo a pensar, a rever, a hesitar, que quando dá por isso o tempo já acabou. Sabem o que está mal no SNS, sabem o que é preciso fazer, sabem que o sistema está falido em muitos aspetos — mas falta-lhes, até agora, o mais importante: a coragem política. Porque reformar o SNS dá trabalho. Dá chatices. Dá protestos. E o PSD, com medo de ferir suscetibilidades ou de perder popularidade no imediato, ficou a meio caminho. Fez diagnósticos, encomendou estudos, reuniu especialistas, fez conferências com powerpoints cheios de boas ideias… mas ficou tudo ali, naquela zona confortável onde nada muda verdadeiramente. O problema do PSD não é falta de visão — é falta de coragem para a concretizar. A direita responsável, sim — mas tão responsável, tão cautelosa, tão com medo de fazer ondas — que, à força de não desagradar a ninguém, acaba por não entusiasmar ninguém.
A Iniciativa Liberal traz ao debate a coragem de quem não tem medo de dizer o óbvio: o SNS, como está, não funciona. E, de facto, a IL tem razão numa coisa: depois de décadas a tratar os utentes como números na lista de espera de um centro de saúde público, dar liberdade de escolha ao cidadão parece uma ideia revolucionária. Tão revolucionária que em alguns países europeus é prática corrente há décadas. A liberdade de escolha que a IL defende é correta. É desejável. É necessária. O problema é que se essa liberdade for financiada com dinheiros públicos, sem controlo, sem regras e sem fiscalização séria, o resultado está à vista: um banquete à custa do erário público, servido à mesa dos grandes grupos privados, com entrada, prato principal, sobremesa… e café. Porque sejamos realistas: a doença dos grupos privados não é a falta de lucro. É a falta de limites.
O Chega, fiel ao estilo habitual, grita muito e pensa pouco. Quer “limpar o SNS” — fosse tão fácil resolver a crise da saúde como mudar de canal na televisão. Propõem medidas simplistas, discursos de guerra, mas nenhuma solução concreta. Aliás, para o Chega, a saúde é só mais um palco para o espetáculo habitual de indignação — barulho em vez de estratégia. O Chega quer tratar o SNS como trata todos os outros temas: com raiva e sem rigor. E como se sabe, em política de saúde, raiva não cura. Só inflama.
No fundo, todos prometem. Todos juram que vão salvar o SNS. Uns com mais Estado. Outros com mais mercado. Uns com mais funcionários públicos. Outros com mais liberdade de escolha. Mas todos, sem exceção, esquecem que o verdadeiro problema do SNS é estrutural, crónico, e alimentado há décadas por esta mesma classe política que agora promete resolver tudo com uma frase de campanha. Prometem tudo. Não resolvem nada.
Mas há uma coisa que o SNS tem garantido — não é Serviço Nacional de Saúde.
É Serviço Nacional de Slogans: E esse, meus caros, funciona sempre. Não trata ninguém. Mas dá muitos votos.
