Opinião: Amor e rejeição
Amar nem sempre é correspondido. Amar quem nos ama é uma bênção divina. Amar com limites é outro constrangimento difícil. Amar quem tem compromissos. Amar e ter compromissos é diferente também. Depois há amar e ser rejeitado. Há amores que temos que não nos querem perto. Nas amizades passa-se algo semelhante. Há quem nunca nos procure revelando um descomprometimento que não é amigo. Amigo carece de informação e afecto. Sou muito teu amigo! Mas eu sei que estiveste na minha rua, que vieste para a mesma cidade e não me disseste nada! Oh pá, sabes como é! A vida é terrivelmente ocupada. Não, se fosses meu amigo tinhas um tempo para mim! Amizade por quem sempre se disponibiliza, sempre te soluciona um problema, sempre te encontra uma porta e uma janela, é fácil! Isso é necessidade. Sou-te útil e lembraste! Na realidade eu não tenho precisado de ninguém e por isso procuro-te para conversar, para te falar. Sou teu amigo portanto. Tu não!
O importante é perceber que este vector é unívoco. Nem sempre as amizades são recíprocas. Tudo isto é igual ao amor. Podemos amar várias pessoas. Podemos amar intensamente por razões diferentes. Podemos querer mais que uma pessoa. Há os sabores físicos, os desejos materiais, as paixões carnais, a empatia intelectual, a admiração reverente. Mas quem eu admiro pode achar-me um tonto. O vice-versa é possível também. O problema do vector não ser biunívoco é a frustração da seta que falta. Eu amo-te e tu não! Não me amas? Não me admiras? Não! E o não é tão potente, tão violento sobre a vaidade que despoleta rancor, ódio, frustração. Não gostas de mim? Não! Mas eu amo-te! Eu não! A violência desta realidade é uma causa de turbulência e de agressão. Na amizade passa-se algo semelhante. A tragédia dos relacionamentos é esta energia que emanamos para alguém que a não quer receber. É como ligar uma ventoinha sem perguntar. Incomoda. Sim! Nós às vezes incomodamos aqueles que gostávamos de agradar. Que fazer? Deixar! Sair. E se temos mais que um amor importante? A mentira é o isolamento da construção. Só que quando a mentira cair as relações vão-se embora também! Lá vem a frustração. Tu querias manter, mas eles não. Tu querias ter, mas eles não. A complexidade das emoções é ilimitada e por isso complexa e surpreendente. Se me amas a mim, porque gostas dela também? Porque é fascinante também, porque me cai como um perfume. É neste ponto que vem a limitação intelectual das emoções. Podemos chamar respeito, mas na minha ideia é o medo de magoar. Magoando, desmorona-se a realidade construída, que a omissão ou a mentira permitem.
