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Opinião: A última Revolução

01 de junho de 2024 às 12 h59
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Em 27 de Abril deste ano, celebrou-se o 30º aniversário das primeiras eleições multirraciais na África do Sul, após a queda do regime de apartheid em 1994, em que participaram 19 partidos políticos. A imagem que prevalece do dia dessas eleições foi a de longas filas de pessoas, muitas das quais obrigadas a viajar longas distâncias, aguardando horas pacientemente pela sua vez para votar.
Em 1994, era o despertar da democracia na África do Sul, que deu ao mundo uma das maiores alegrias do final do século XX ao eleger Nelson Mandela como o seu primeiro presidente negro.
A transição negociada, mais ou menos pacífica, do apartheid para a democracia multirracial foi possível quando os três inimigos políticos – Partido Nacional (NP), de Frederick de Klerk; Congresso Nacional Africano (ANC) de Nelson Mandela, e o Partido Livre Inkatha (IFP) do príncipe zulu Mangosuthu Buthelezi -, estabeleceram um acordo que permitiu o fim da violência étnica à época, e a criação de um governo de unidade nacional até 1999, após o qual o ANC passou a governar com maioria, ao ponto de ter acreditado nos últimos anos que iria permanecer no poder “até Jesus vir à Terra”, como referiu o seu antigo líder e Presidente da República, Jacob Zuma.
Todavia, na passada quarta-feira, 29 de maio, o ANC sofreu uma verdadeira hecatombe nas urnas, em que 30 anos de governação de libertação foram reduzidos a cinco anos, numa só eleição, contestada a nível nacional por 52 partidos. Pela primeira vez, em três décadas de democracia no país, o ANC de Mandela, em declínio eleitoral desde 2016, perdeu a sua maioria no parlamento de 57,50% ficando reduzido a 42% dos votos, segundo a primeira projeção dos resultados finais do escrutínio mais contestado nos últimos 30 anos que serão conhecidos neste fim de semana.
Em 1994, o então líder Joe Slovo do Partido Comunista da África do Sul (SACP), que sempre dominou o comité central do ANC, considerou que a queda da antiga União Soviética se deveu à “má aplicação” do Socialismo, defendendo que o “socialismo real”, ou “verdadeiro”, poderia ter sucesso na África do Sul, desde que implementado com “paciência”.
Três décadas depois, a questão é se a democracia conquistada pelos filhos da geração de Mandela conseguirá reverter o declínio social e económico em que o país se encontra. Após uma primeira década estável e de governação credível, o ANC de Mandela presidiu à estagnação da economia mais desenvolvida de África, crime desenfreado, pobreza generalizada, elevado desemprego, serviços públicos falidos e corrupção publica de proporções épicas.

Autoria de:

Carlos Henriques

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