Opinião: A luta pelos recursos e o medo da mudança
Há algo que se tornou impossível de continuar a ignorar: a luta pelos ‘recursos naturais’, que são escassos, está no centro das grandes tensões do mundo atual. Petróleo, gás, minerais estratégicos, água, territórios. Tudo isto está a ser disputado num contexto de crise climática, degradação ambiental e perda acelerada da biodiversidade, que têm forçosamente provocado uma redução ainda maior da disponibilidade desses ‘recursos’. Mesmo assim, muitos dos que detêm maior poder político e financeiro continuam a agir como se nada disto exigisse uma mudança profunda e, mais do que isso, a resistir-lhe.
O que mais me inquieta não é apenas o negacionismo climático. É a recusa em aceitar que o modelo de sociedade em que vivemos falhou. Um modelo assente na ideia de crescimento económico contínuo e ilimitado, energias fósseis, exploração intensiva da natureza e desigualdades estruturais. Em vez de encarar a transformação necessária, assistimos a um agarrar desesperado ao passado. Vemos grandes potências a defenderem uma visão do mundo retrógrada, gananciosa e neoimperial. E por isso reforçam a indústria da guerra, desrespeitam as instituições internacionais, a soberania dos Estados, normalizando o conflito, apresentam a violência como inevitável e tratam a destruição como sendo um custo aceitável. Tudo para manter um sistema que já não oferece futuro, apenas o adiamento do colapso. É um retrocesso civilizacional. Em vez de cooperação, competição extrema. Em vez de cuidado, dominação. Em vez de transformação e negociação, força bruta e imposição.
A ciência, que nos ajudou a compreender os limites do planeta e a gravidade da crise ecológica, é também usada para mapear recursos. O que favorece o conhecimento, mas também o controlo: países passam a ser vistos como reservas a explorar.
Assistimos e vivemos um jogo perigoso, com vários atores com capacidade de destruição. E todos parecem dispostos a ir mais longe para garantir acesso aos recursos de que dependem as economias que se recusam a mudar. Convém sublinhar que quando a transição ecológica é apresentada como perda, seja de emprego, de estatuto, de poder de compra, de segurança, abre-se espaço para líderes que vendem o “retorno ao passado” como conforto. Prometem estabilidade, identidade e proteção, quando na verdade oferecem regressão, conflito e autoritarismo. É por isso que a transição ecológica só será politicamente viável se for entendida como materialmente justa.
Na verdade, a crise ecológica e a erosão democrática são a mesma crise vista de dois ângulos. Um modelo que destrói a natureza é o mesmo que fragiliza a democracia, concentra poder, silencia vozes e transforma territórios e pessoas em meios descartáveis. E não podemos continuar a viver à custa de um crescimento que destrói e mata o planeta. A Terra não aguenta. E nós também não.
Por isso não podemos continuar presos a um modelo destrutivo, e somos desafiados a escolher, com coragem, outro caminho ou caminhos. Um caminho que reconheça que cuidar da vida – humana e não humana – é a única base possível para um futuro digno.
