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Opinião: A lista interminável

29 de março de 2025 às 12 h42
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A saúde de que se fala em Portugal é uma manta de erros de protagonismo, uma demência de decisões, que todos conhecem, mas ninguém ousa enfrentar porque isso incomoda, isso torna mau o cargo oferecido por amizade ou simpatia.
Alguns dos erros: 1 – paga-se mais ao prestador de urgência do que ao médico no seu local de trabalho. 2 – No meu hospital a hora extra é mais barata do que quando a vou fazer a outra instituição pública. 3 – As comissões de certificação desenhadas por abencerragens decidem sobre piaçabas e volumes de água nas retretes. Discutem locais e quantidades de lavagem de socas. 4 – Os tempos entre cirurgias são cada dia mais longos. Como diz o Medeiros, devíamos contabilizar os tempos de espera e não os actos médicos. “Esta manhã dá para quatro tempos entre cirurgias”. 5 – O número de auxiliares em urgência é muito inferior ao dos médicos e enfermeiros construindo constrangimentos incompreensíveis. 6 – As comissões de constrangimento de trabalho crescem mais que cogumelos, umas para controle de infecção, outras para controle de fardamentos, outras para decisões terapêuticas, outras para regulamentos de transferências. Tudo trava a eficiência da relação com o que precisa ser tratado. 7 – O investimento institucional em albergues de idosos ou cuidados continuados é uma falácia que ficou caríssima, corresponde a um erro estratégico e ocupou inúmeras camas dos hospitais com gente que está no aguardo. 8 – O encerramento de portas de entrada catapultou urgências centrais, que não podem fechar, para campos de refugiados, lugares de endurecer profissionais, dar espessura aos sentimentos, destruir qualquer capacidade relacional. 9 – As urgências como a do polo ULSCoimbra são uma patologia em si mesma, e não estão pior porque alguns profissionais insistem em tentar resolver, apesar dos absentistas, dos esquivos, dos que aprenderam a fugir da frente de batalha. 10 – A petulância de estruturas de decisão vai obnubilando o protagonismo clínico e atordoando a capacidade de tratar os doentes. Há normas da DGS, do Infarmed, da ERS, da ACSS, pareceres das Ordens, umas conflituando com outras, mas todas se achando importantes. 11 – O prevaricador, o absentista é melhor tratado que o trabalhador. 12 – A decisão de despedir alguém que não faz nada, que não trabalha, que não cumpre, que não faz um gesto de humanidade, que é litigante de má-fé, está bloqueada pelas leis construídas com base nos direitos sindicais que realmente defendem os lóbis e os grupos profissionais. 13 – Os salários compostos de vantagens, com truques, com alcavalas, desenhados por gente que faz muito menos de manhã, em horário normal, do que de tarde em adicional, constituem um escândalo que já ninguém quer discutir. 14 – A ausência de vigilância, a ausência de poder do mando, a ausência de fiscalização das decisões, a ausência de prova de que fazem sentido as opções que se tomam é cada dia mais gritante. Os da política acham, acreditam, sonham, mas não baseiam nenhuma escolha em critérios medidos e comprovados. 15 – O bem público está sepultado pelas vantagens individuais. 16 – Os negócios de transportes, as estruturas de bombeiros são hoje parasitas em torno de um sistema onde se privilegia empurrar que decidir, se privilegia abusar do estado, ao invés de utiliza-lo de modo cerimonioso. 17 – Os cuidados paliativos estão uma sombra do que deveriam ser. 18 – As políticas de prevenção, as decisões duras de conter o desperdício, as opções contra os gastos e os lixos desnecessários, a coragem de dizer que algumas ideias Não! 19 – As agências nacionais de compras em que pululam ex ministros e secretários de estado. O outsourcing descontrolado para a segurança e higiene hospitalar. O SUCH que compete com os privados em lavandaria e comida. 20 – ….
A lista ainda está na metade e estou a esgotar o leitor sem ter chegado ao fim do assunto e sem esmiuçar os detalhes. Acreditem-me que o desalento dos melhores não vem do acaso. Os culpados são os dois grandes partidos e o seu espaço de conluio em que se tornou a Escola Nacional de Saúde Pública, ou a escola de fazer Ministros da Saúde .

Autoria de:

Diogo Cabrita

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