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O IP3: primeiro a espera, depois a conta?

22 de setembro de 2026 às 10 h15

Há anúncios que surpreendem. Outros que se temem. As recentes declarações do Ministro das Infraestruturas, Miguel Pinto Luz, sobre a possibilidade de o IP3 vir a ser portajado após a conclusão das obras de requalificação conseguem pertencer a ambas as categorias. Surpreendem e indignam.
Durante décadas, as populações da região Centro do País foram ouvindo promessas sobre a transformação do IP3. Governos de diferentes cores políticas anunciaram estudos, projetos, concursos, adjudicações e intervenções iminentes. Em certos momentos, o anúncio da obra já parecia ter mais quilómetros percorridos do que a própria obra.

Entretanto, os utilizadores continuaram a percorrer diariamente uma via sinuosa, perigosa e desajustada à importância estratégica que tem para a região. Continuaram a somar-se acidentes, constrangimentos e anos perdidos na esperança de uma solução que tardava em chegar. E continuaram milhares de pessoas a deslocar-se para trabalhar, estudar ou aceder a serviços essenciais através daquele que é na prática o único eixo de ligação entre Coimbra e Viseu.

Finalmente, chegaram as obras. Com elas chegaram também filas, desvios, demoras e todos os transtornos inevitáveis de uma intervenção desta dimensão. Nada disso causa particular estranheza. Faz parte do preço temporário a pagar por uma infraestrutura melhor e mais segura no futuro. O que causa espanto é que, numa fase em que os benefícios ainda não se fazem sentir e os incómodos são a realidade diária de quem lá circula, alguém tenha considerado oportuno abrir desde já a porta à cobrança de portagens. É extraordinário.

As populações esperaram décadas. Suportaram anos de promessas incumpridas. Estão agora a suportar os incómodos das obras. E a mensagem que recebem é mais ou menos esta: tenham paciência, aguentem os constrangimentos e, quando tudo estiver finalmente pronto, preparem também a carteira. Não me parece de todo a melhor forma de premiar a resiliência de uma região.

Ninguém discute a importância da obra. Melhorar o traçado, aumentar a segurança e reduzir significativamente a sinistralidade são objetivos fundamentais. Aliás, eu diria até que são obrigações do Estado. O que é incompreensível é a lógica de transformar numa via paga aquela que, na prática, constitui a única ligação rodoviária viável entre duas capitais de distrito e um eixo vital para dezenas de concelhos do interior.

A 01 de Janeiro de 2025, foram abolidas as portagens nas chamadas ex-SCUT. Independentemente das circunstâncias políticas que conduziram a essa decisão, as portagens são ou não um entrave ao desenvolvimento de determinadas regiões? O utilizador pagador para Coimbra tem que o ser no IP3 e não o é na A13? O de Viseu é-o no IP3 e não o é na A25?
Talvez o que mais me incomode seja mesmo a falta de sensibilidade revelada pelo momento escolhido para lançar esta ideia. As famílias enfrentam custos de vida elevados. A mobilidade pesa cada vez mais nos orçamentos familiares. Na maioria dos concelhos do interior, o automóvel não é um luxo nem uma opção. É a única solução. Quem trabalha, quem estuda, quem necessita de cuidados de saúde, quem decidiu investir ou quem transporta mercadorias sabe bem disso. Perante esta realidade, admitir portagens no IP3 é revelar um preocupante afastamento da vida concreta das pessoas e das empresas desta região.

Ao longo da minha vida eleitoral, o partido que atualmente governa mereceu na maioria das situações a minha confiança. Não tenho qualquer dificuldade em reconhecê-lo. Mas também não tenho qualquer dificuldade em afirmar quando considero que algo está profundamente errado. E neste caso está. Errado no conteúdo. Errado no momento. Errado na mensagem que transmite a toda uma região.

Em 2018, o então Governo prometeu-nos um IP3 inteligente, digital, conectado por 5G e preparado para o futuro. Seria uma amarga ironia se, de todas as maravilhas tecnológicas então anunciadas, a única que acabasse verdadeiramente concretizada fosse a capacidade de detetar os utilizadores para lhes para lhes apresentar a respetiva conta.

Resta-me esperar que sejam mais sérias, mais sólidas e mais consequentes as palavras do Ministro da Presidência, António Leitão Amaro, quando garante que esta via não terá portagens, do que as declarações do seu colega das Infraestruturas que vieram lançar esta desnecessária inquietação sobre toda uma região. Porque aquilo que está em causa já não é apenas uma estrada. É também a credibilidade da palavra do Estado perante uma região que esperou décadas por uma infraestrutura segura, moderna e condigna. O IP3 não é um luxo. Não é uma alternativa. Não é uma conveniência. É mesmo uma necessidade.

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