Opinião: A infância hiperestimulada
Patrícia Silva Bastardo, Psicóloga Clínica
Na prática clínica, tem-se observado uma mudança significativa no tipo de preocupações associadas a crianças e jovens ao longo da última década. Se antes eram mais frequentes a rebeldia própria da idade ou os medos normativos do desenvolvimento, hoje surgem sintomas que até há pouco tempo associávamos sobretudo aos adultos, como a ansiedade de desempenho, a insónia causada pela hiperestimulação e um cansaço existencial que aparece cada vez mais cedo.
Ao transpor o pensamento de Byung-Chul Han para a psicologia do desenvolvimento, percebemos que estamos a criar os nossos filhos segundo a lógica da Sociedade do Cansaço, transformando a infância num estágio preparatório para a autoexploração.
Han alerta: o “poder” substituiu o “dever”, pressionando crianças a serem “multitasking” desde cedo. O tempo livre, que deveria ser o território do brincar profundo, foi colonizado por agendas repletas de atividades extracurriculares, ecrãs e metas pedagógicas. Como psicóloga, vejo que a criança raramente tem permissão para o tédio. Ora, o tédio é, para Han, o “pássaro onírico que choca o ovo da experiência”. Sem ele, a criatividade morre e sobra apenas a reatividade aos estímulos digitais.
A exposição precoce às redes sociais coloca crianças e jovens sob a “ditadura da positividade”, onde a visibilidade e a aprovação externa substituem o privado e a interioridade, prejudicando a capacidade de sentir tristeza, refletir e reconhecer os outros.
A pedagogia atual, muitas vezes focada apenas em competências e resultados, ignora a chamada vida contemplativa. Estamos a treinar a atenção fragmentada (hiperatenção) em detrimento da atenção profunda. Embora seja útil para lidar com muita informação ao mesmo tempo, pode prejudicar a atenção profunda, a reflexão, a leitura prolongada e a capacidade de escuta. Uma criança que não consegue fixar o olhar num livro, num inseto ou num jogo sem recompensas imediatas é uma criança cuja capacidade de contemplação foi enfraquecida. Do ponto de vista clínico, observa-se um aumento significativo de dificuldades e perturbações que, em muitos casos, são sintoma de um sistema nervoso exausto pela sobrecarga de positividade e estímulos.
Educar sob a luz de Byung-Chul Han exige uma coragem contra-cultural: a coragem de proteger o “tempo do não-fazer”.
Precisamos de devolver às crianças o direito à inatividade, ao silêncio e ao brincar sem finalidade pedagógica ou lucrativa.
O papel dos pais e educadores hoje não deve ser o de gestores de carreira dos seus filhos, mas o de guardiões de um espaço onde o erro é permitido e necessário, e onde o mundo não é apenas um recurso a ser otimizado.
A verdadeira saúde mental na infância reside na capacidade de habitar o tempo sem a urgência da produtividade. Só assim evitaremos que a próxima geração seja uma massa de indivíduos “esgotados e isolados”, como Han prevê, e permitiremos que floresçam seres capazes de uma atenção amorosa e de uma presença real no mundo.

Artigo excelente, muito bem escrito e que toca pontos fundamentais da educação nos dias de hoje.