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Opinião: A História da água na Terra estava mal contada!

31 de julho de 2025 às 10 h37
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Um estudo de Duarte Branco e Pedro Machado, ambos do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço e da Universidade de Lisboa, e de Sean Raymond, do Laboratório de Astrofísica de Bordéus (França), publicado este mês na famosa revista Icarus, conta-nos uma nova história possível para a origem da água no nosso planeta Terra. A revista Icarus, fundada em 1962, publica exclusivamente trabalhos de ciências planetárias, tendo sido dirigida durante 9 anos pelo famoso Carl Sagan, e não é todos os dias que se consegue nela publicar resultados. Mas vamos ao que nos interessa agora: o resultado.

Chamamos de planetas terrestres aos planetas Mercúrio, Vénus, Terra e Marte. É também ainda frequente chamá-los de planetas telúricos. Chamamo-los assim porque são planetas essencialmente rochosos. No início da formação do sistema solar tínhamos apenas o Sol no centro e, girando à sua volta, um enorme disco de gases e poeiras, sendo apenas possíveis cristais de gelos bem longe do sol, onde as temperaturas já eram baixas. Com o tempo, algumas poeiras juntam-se a outras, formando «grumos». Os grumos vão «rebolando» e acumulam mais poeiras, crescendo cada vez mais depressa — tecnicamente, chama-se: acreção. Alguns chocam com outros partindo-se em mil e um bocados que vão depois acabar por alimentar o crescimento de outros que nunca chocaram com nada grande. Em menos de 3 milhões de anos já tínhamos milhões e milhões de corpos com mais de 1 km de tamanho, aos quais chamamos «planetesimais». Em menos de 10 milhões de anos já temos objetos maiores do que a Lua, aos quais chamamos «protoplanetas». E é aqui que começa a nova história. Aquilo que é hoje o nosso planeta Terra, com a Lua ao seu redor, nasceu de uma grande colisão entre dois protoplanetas: a proto-Terra e a Theia. Muitas da poeiras e pedras lançadas para o Espaço nesta colisão, voltaram a cair, por força da gravidade, na Terra, tendo-se formado um anel de poeiras e rochas em torno da Terra que, com o tempo, acabará por se acumular principalmente na Lua.

Uma das questões que ainda gera muito debate é precisamente o facto de termos o nosso planeta Terra com muita água à superfície. Já se pensou que teria sido devido à queda de muitos cometas, que são compostos principalmente por gelo de água. Mas, embora tenhamos ainda pouca medições fiáveis, tudo indica que a água dos cometas é um pouco diferente da nossa (tem demasiados casos em que um hidrogénio da famosa molécula H2O está trocado por um deutério, coisa rara aqui pelas nossas bandas). Hoje, estamos mais inclinados para ter sido principalmente o resultado da vaporização das muitas moléculas de água que existem dentro das rochas que formaram a Terra — muitas vindas da Cintura de Asteroides que está entre Marte e Júpiter — que depois de libertadas na nossa atmosfera acabaram por resultar em chuva. Porém, o estudo de Branco, Machado e Raymond sugere-nos que o protoplaneta Theia que chocou com a proto-Terra, não era parecido com a proto-Terra. Era, sim, um protoplaneta «oceânico», formado entre Júpiter e Saturno, onde já era possível devido às baixas temperaturas, fazer crescer planetesimais e protoplanetas muito mais ricos em gelos.

Mas precisamos mesmo de ter tido uma colisão com uma Theia muita rica em gelos para explicar toda a água na Terra? Não, não precisamos. Poderia ter resultado toda apenas da queda de asteroides com muitas molécula de água nas suas rochas — lembrem-se que de 2 a 3% do cimento de qualquer parede são moléculas de água! O que não se consegue explicar é termos muitas molécula de água no manto da Terra, a 600 km de profundidade. Para essas moléculas estarem lá, tão fundo, era preciso uma enorme colisão e a única grande que sabemos quase com toda a certeza ter acontecido foi a precisamente a colisão com Theia. Logo, se Theia tivesse sido rica em água, como os modelos de computador mostram poder ter sido, temos uma melhor explicação e aguardam-se agora acessos debates sobre o tema.

Autoria de:

Nuno Peixinho

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